as raízes das begônias mais fortes um jardim inteiro delas laçarão meu tórax por baixo da terra, comprimindo massacrando ao máximo como silicone os ossos, daí as costelas enfim deixando os seus limites de costela: atravessando os órgãos mortos com a força das flores
rompendo pelos anos que passaram separados, que passamos separados, e quando as flores vergarem ao sol vão chacoalhar a carcaça presa no subsolo, que infla e estala com fomes microscópicas
a carne humana porque foi só
mais que todas martelada, ela
custa ao sumir: é fibrosíssima

o peito infestado de caules anelares que sobem e trançam nos cabelos que encaracolaram e crescem sem vergonha então os caracóis
os outros vermes sem sexo buscarão no meio das pernas o sumo protéico que cheira na distância maciça do chão, a boca lenta do verme não há vermes sozinhos / os fêmures são leito para contaminações de todo tipo / no umbigo está cravada a raiz da peste, que é grossa e mexe com imponência orixá / a carne involui com a velocidade
da terra nas veias dissecadas que serão comidas por último: há pouquíssima matéria cósmica empenhada na vida
em amebas peludas e bactérias primitivas derramam os venenos verdes mais potentes / as veias dissecadas recebem vampiros carniceiros que bebem o sangue podre cujos desejos evaporaram: eles sofrem em covas com a sede deste sangue, arrastam até o ponto do cotovelosso desde muito longe em túneis lentos presas/oferendas
e tudo isto é muito alegre – a terra doce toda treme
e por fim nas flores o topázio das carnes, a experiência das carnes – as tépalas as corolas cálices estames nascerão dos meus olhos na planta, câmaras de tudo que eu vi & mais um pouco elas têm cheiro do baço, do ânus, do ranço que chupam em ciclos solares

câmara orgânica
as raízes que lacerarem meu cérebro serão belas e potentes: nelas propago meu amor perfeito
eu sinto então

vários deuses me conformam, o que é uma sorte qualquer – sou um buraco negro de instante, e por isso tenho de ser eliminada da maneira mais simples: por um buraco negro dos tempos da terra

(a gravidade que me arrasta arrebata ao subsolo é desejo, não é segredo)

as cócegas roçam e aquecem todas as partes moles de mim distantes
sentados por entre as begônias você arranca um ramalhete com
força nossas bocas mutiladas a três mm então

breque-ou-tu-luz

agora há minuto já nem me lembro amanhã quem sabe quando a luz caiu por culpa do ministério. As lâmpadas reduziram sua intensidade até um vermelho perturbador e instável, e a paisagem toda pareceu de repente encher-se desse vermelho, estou sozinha e minha pele já não brilha. Chamarei-o de x, o x pifou e sumiu, então finalmente ficou tudo escuro; então eu vomitei. Eu sinto uma dor feminina mas não há motivo para tanto, veja bem, não há tempo para traumas desse tipo. A luz da rua começa a ficar cada vez mais escassa, cada vez menos o vermelho bruxuleante, as vozes há muito tempo silenciaram eu sinto fome, o meu ouvido apita. Eu queria sair mas as escadas do prédio são longas, os andares são tantos e tão sombrios e escadas são intermediários poderosos e temíveis; falta dentro de mim um guerreiro deste porte. Estou me resignando aos poucos, já não posso telefonar, a energia está acabando, será o fim do mundo tão terrivelmente suave? Pelo telefone aprendi que a polícia faz a ronda no subúrbio mas o meu telefone quebrou então não sei de mais nada. Muito silêncio. Alguém gritou pega ladrão e então mais silêncio. Será que na morte terei alguma parte desta casa sob o meu governo? Se durante o sono esta explosão eletromagnética que se anuncia, o que é que me atravessaria o corpo? Cabides, os copos, punhetas negadas ao braço de uma guitarra, o mundo cada vez mais distraído e isso agora me apavora, quanta fome. Está calor com vento frio e ventam as pessoas trancadas no escuro frio cristo já não deve voltar com o cigarro, não há mais como voltar, já não vão deixá-lo subir será impossível amar! Hoje ninguém vai festejar, parece. Esta noite vai ser de espera e portanto muito selvagem, o céu está totalmente nublado os aviões prendem-se nos triângulos, o ouvido apita os ímãs se excitam e também os lábios rouge bruxo os teus blagues vigorosos astros de toda ordem / massa. A cidade de São Paulo e municípios do Estado estão no escuro na noite desta terça-feira devido a um blecaute. De acordo com informações da assessoria do Ministério de Minas e Energia, grande parte do Rio e algumas cidades do Rio Grande do Sul também foram afetadas. Os trens do metrô pararam de funcionar e escureceram talvez até o escarlate; então os escrotos homens simples que ainda são capazes do desejo passaram a mão por dentro da blusa das velhinhas que ainda choram de pena e ternura por seus próprios / corpos que apodreciam serão despejados hoje na praia da bica, então os passageiros tiveram de sair para as plataformas, amanhã vão faltar ao colégio uma dúzia de crianças histéricas com os trilhos elétricos tão próximos de si / o escuro é a lenda, o morro apagou por sete vezes e por sete vezes eu senti muito medo dos gigantes rubros cavaleiros. Pão puro e maconha para uma subsistência primitiva. Na janela há um forte foco horizontal que vem do hospital, cuja energia intromete-se no organismo dos doentes, cujas lâmpadas iluminam os olhos biônicos dos doentes. A mim mesmo a doença já espreita com uma violência considerável e que é mínima para a razão cósmica; é porque comer pão puro dói-me os dentes, eu já não tenho segurança na dureza dos dentes. Parece-me então que eu terminei acabar nascer, agora! tudo tão mole e quebrantável, que eu estou inteiramente para fora uma moderna mulher convexa mentira: este é o momento de luta até mesmo para os cacetes incorpóreos que eu me finco na própria bunda. O mundo vai acabar e eu estou sozinha, hm. Repare... a luz vermelha... evidencia a sombritude das coisas, a luz vermelha imperceptível, a que desvia dos padrões de sensibilidade minha mãe a luz alquímica vermelha verdade!

Bright Mourning

há um bando de neuroses furtivas

por baixo da cama, atrás da geladeira

elas às vezes apodrecem deixam gosto

na água que parecia limpa uma glândula

na minha cabeça me fazem companhia

em questão de segundos organismos.


evoco-as com a oferenda de flores mortas

assassinadas eu as cravo na janela,

na mesa, no cabelo e em garrafas


minha vida está assim

estas bostas de flores


provocativas mãos de velha fingem

de mortas, riem fogem de mim


minha casa é uma rebelião comigo

muito longe do comando de comandar

qualquer coisa tão autônoma quanto

as panelas, os copos -

eles cheiram a coisas,

o capacho perfura os pés,

microondas explodem comida,

os livros, as músicas, o que pensam

de si mesmos dos outros

em voz alta as intenções mal vistas.


eu sou um espírito disto

isto é um espírito meu


em casa ler

é tão difícil o ruído

ele entra na cabeça

idéias as ordens

redundâncias que emanam

das coisas dos tempos bons e ruins

dos panfletos da história da matéria

eles entram na cabeça


resisto: vida de músculo nas manhãs

córneas arrebentam as janelas para brisa

revolver tanta cinza podre noite sangue

para que a chuva estanque no soalho

para que a tevê também adoeça e morra


mas na verdade a brisa e a chuva é que fazem tudo


adormeço pelos cantos pensando sempre

na fila dos bancos na dor de dente nos

que quiseram não estar aqui.

as palavras dão bicho e a louça da pia

palavrar agonia

de luvas somente


sem acordar o punho em riste

sem querer mexer com dinheiro

a água cessa de correr eu sinto

o triste gotejar das coisas

neste deserto conjugado de papéis

com todos os canais tapados de luz

cortada no escuro aguardo procuro

nesta excitante câmara hermética

impor minha própria pena a mim.)


a casa responde com pragas e calafrios:

mesmo os apartamentos modernos

cubículos de fábrica sujos de tempos

são senhoris como velhos casarões de vidro

produzem ruídos ósseos estalos zumbidos

gritos altos frios trincos -

eles entram sem aviso.


há uma teia de aranha

absolutamente desnecessária

vulgarmente bélica

entre o banco e a mesa

que utilizo todos os dias -

o tempo que for preciso

para desfiar-se sozinha

vai ser o preço dos meus diários


de malucos estou cheio

de páginas a preencher

minha casa está cheia muito cheia

sustentam-lhe os vácuos das pessoas

de dostoiévski da insurgência

da fome das drogas vasculares

polanski, klaus kinski, leminski

(esse direito tem na sua experiência

uma veia eslava e também muitas

outras veias moles e duras


há mais de mil apartamentos

no condomínio toneladas

de bibelôs inúteis

ameaçados pelo peso dos

meus vestidos das

dedicatórias

e um vazio atômico

vezes mil vezes um

simples prelúdio da cidade:


a casa é um dom maior

que me furta ao trabalho e sufoca

com sua poltrona, papéis de cigarro

sugere-me trabalhos mais graves

que se cumprem dentro dos olhos.

Novíssimo cristão

E disse:
você precisa trazer nada só a roupa do corpo:
e pode ser qualquer roupa
nada além da roupa do corpo
(na voz de um coroa sedutor)


Estão traumatizando-se ainda
para que então me odeiem
com certeza
as suas mães lhe batem ou têm a cara furada
para que
deslizem as mãos pelas chaves que
eu deixei do lado de fora
fechar da porta
tudo bem aberta
não há ninguém no banheiro
não há ninguém no box
no chuveiro nem no armário da pia
ninguém espia de dentro do teto rebaixado
ninguém dentro do canal de ventilação
Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se
que animal veloz é que está


Toda vez que eu entro em casa
esqueço as chaves
do lado de fora para quem
quiser trancar ninguém
nunca ninguém terá visto
Estão nascendo agora
os invasores como
como fantasmas de cinza
pouco violentos
violadores de mente aberta

INFORMAÇÃO : VIOLÊNCIA

A HUMANIDADE E EU
alcançamos neste instante o ápice de nossa experiência
agora o futuro desde os anos 90
o futuro está nas teleconferências e nas câmaras finas
celulares
cartão de crédito nos táxis que a qualquer lugar
vou a pé com chaves sem medo
ultrapassamos o futurus em milênios aoristos
agora
na salinha de espera,
pregando os novos evangelhos
poemas do benedetti


Eu desentupo a pia
vácuo off
desentupidor eu agora
Sentindo vibrar em mil intermédios
o teu corpo no cano de água
os teus braços quebrados esmigalhados de cristo
a cor de tanto sangue e miolos cristais
espalhados
no chão no noticiário
vácuo vácuo
saindo pelo ralo de fininho...

eu estaria disposta a esquecer
sob certas circunstâncias
circus dances under demons

LOOK cheap
passo apertado
cheirando a ovo
pisando em lírios
eu chego em tua casa da rua
todos os olhos dentro dos meus
esqueci a chave pro lado de fora
sim não é assim
ainda não sei
sim
o medo não existe
os nervos não têm vida própria
e disse:
demônio ocupa pouco espaço
deserto
o pensamento desafia o pneumotórax
liberdade
abra seu coração
antes
que seja tarde
que seja precisa uma lâmina
BOOM a man.

Minha avó, máxima musa das iluminuras
sua cara preta e suas roupas pernambucanas
castrou com as mãos
uma lâmina, agulhas quentes
num procedimento sem origem
o gato com que eu brincava na infância
castrado ficou
muito borocoxô
incapacitado de suas funções vitais
entediado e gordo
tornou-se homem
o gato dos meus dias de garoto
branco ágil de garoto
agora com dores nos ossos
brancos enfim
o gato bípede um homem quadrúpede
homem excêntrico e médio, cheio de caprichos
gato liso inflamado
despido costurado
deprimiu-se
morreu velhinho.

Despedida da casa da vó 1

Minha avó entreabriu a porta do quarto agorinha mesmo
pra me dar um daqueles recados doces de quando a gente está de visita. Ela sabe
que eu estou só de passagem, que eu nunca mais vou voltar a viver com ela, que a vida é assim mesmo, ela mesma está feliz do jeito dela ou melhor ela é
assim mesmo, avó cozinha
macumba, evita conflitos, não gosta de ler mas de ver filmes. Avó adora
canjiquinha, a sensação da borra do café ainda quente escorrendo-lhe pelo rosto, o grande mastroianni, linda cláudia cardinale / bagos de flores do manjericão roxo / nós da renda inglesa / agulhas quentes número quatro/ minha voz cantando why did you cry last christmas on the back seat / adora a sensação dos ladrilhos portugueses limpos nas entranhas, o sentimento do diabo verde desentupindo-lhe os sonhos ela pinta o cabelo com tonalizante de vermelho bordeaux vinho profundo cabernet-sauvignon-réaumur-sebastopol num coque trançado desfiado que deve pesar-lhe o equivalente a um terceiro braço
um terço barato enrolado na mão direita peluda mesmo em avançada idade, as pintas gordas
Abriu a porta porque sabia que eu estava pensando demais, para dizer que o culpado pela morte de Reginaldo dono da boate é o Felipe capanga da socialite Olívia me diz com um sorriso delicioso que ele foi preso e que vai pagar pelos meus erros
na novela das oito, porque sabe que eu não sei quem é Reginaldo eu entendo que ela quer me transmitir um dos seus próprios segredos eu sinto o seu hálito de chá por entre os dentes separados por raízes de ferro encravados no maxilar por uma máquina cirurgiã de lata que cobrou-lhe quatrocentos reais
por coroa para
que ela pudesse agora me sorrir tão lindamente com os seus olhos de criança, para
que ela pudesse mastigar triturar dissolver digerir os tenros rabanetes que lhe alucinam
Um dia em breve mais tarde já
já eu vou ler essas linhas e a avó estará morta.
Não descansará os joelhos: estará morta dos joelhos
reumáticos na poltrona moldada para suas banhas no quarto de tevê na casa com jardim no jardim esperança no norte do município no sudeste do estado no sudeste do país mais ao sul que ao norte do mundo se considerarmos para tanto o eixo de rotação que nos ensinam no colégio e
quando eu olho nos olhos doces da avó morena eu sei que a nossa vida não tem nada a ver com esse eixo e que o jardim esperança está no meio do planeta e que do outro lado, na china ou na rússia, deve morar uma velhinha magra cética de cabelos brancos e curtos sem dentes com o sorriso amargo e os olhos puxados
Avó tem os olhos redondos e semana
(talvez o outro lado do mundo seja o meio do mar pacífico, não sei)
que vem ela opera o joelho, que agora parece uma enorme
bola de água ou de gás. Deve ter doído pacas andar até aqui só
prestes a explodir eu
só para me dizer uma doçura, eu
acho que a avó está merecendo um abraço de despedida
daí todo mundo se entende um chororô e começa o chiado triste ao fundo de why did you cry last christmas on the back seat na voz de uma diva alcoólatra (eu não sou uma diva alcoólatra), mas a avó é
engraçada e se eu abraçasse ela agora ela ia fazer exclamações e me aprontar um lanche, uma trouxa, cadernos grossos e canetas decoradas, uma muda de begônia, uma pequena palmeira, a receita de uma simpatia complicada ela deslizaria
a unha pelas rugas que começam no canto do nariz, colocaria luvas de borracha e iria para o
jardim desenterrar um bulbo de mandrágora, aparar da esperança as folhas da sebe fazer cafuné nos xaxins
entender-se com as ervas rasteiras e sussurrar nos buracos das sementes palavras de carinhos e sentido que teriam tido sumária importância nos estudos etnográficos brasileiros
catalogadas em três volumes sob o título de “poemas misteriosos da velha bruxa fluminense” se para tanto
houvesse nascido a avó ao menos trezentos anos antes do que de fato. Hoje o mundo tem gente demais, e quando a vó morrer não vai haver tristeza alguma: a
morte é seu elemento,
sua terra
funda amizade.

Tentativa de redenção do tempo perdido com trâmites burocráticos

(antes que seja preciso buscá-los
pôr-me em busca)

Factum:
Eu preciso de um comprovante de residência em três vias xerocado em meu nome ou de um cônjuge ou de parente em primeiro grau ou de um parente em segundo grau neste caso anexado a uma procuração que ateste a minha residência.

Factum dois:
Eu tenho um velho de Niterói
Eu tenho um novo em nome da minha avó
Não prestam.

Mas senhora eu moro metade do tempo em
um pensionato em Niterói
metade do tempo com a minha avó aqui em Copacabana
Não prestam.

é mentira eu moro só e
agora
eu me inventei um fantasma
da minha avó ainda viva

ela vai vagar solitária
com um bordado e a tevê ligada
talvez tímida
talvez furiosa
talvez lúcida
talvez já senil
derrubando pratos
arrancando os cantos com as unhas
arrastando chinelos
arremessando os copos
pelo apartamento
de Copacabana e de mim

(Na cabeça da atendente
que me negou a luz
agora na minha
em muitas
cabeças
a vó.

vivo só
mas com o nome dos outros
as certidões, os atestados, as cinco vias a xerox autenticada
todos falsos:
a verdade teriam de ver com seus próprios olhos
preguiçosos

a palavra nunca nos bastou
senão jurada
com jurisprudência nos autos
em jurisdição pública
o juízo é fundamental e
às vezes é melhor ficar calado.

crackup

(assistente de edição: I caro)

Procurando por fotografias de quando fui loiro e tive pai
estava descontrolado nervoso por saber que há menos de um mês estavam pousadas pronunciantes na cadeirinha branca, agora já estou atrasado para a companhia já procurei em todos os lugares bolas. Começo então a cogitar o absolutamente insólito, por entender que o mundo é bravamente minoritário e esperá-las no ralo do chuveiro, debaixo do armarinho de temperos e entre as antenas do televisor. Por fim adormeço no colchão
C r a c k vupt, parece que ouvi um barulho debaixo do armarinho, mas não podem ser mais baratas, por deus que não! É antes como algo arranhando a madeira, de leve suave pouquinho só algo pequeno, mas já parou o barulho. Encosto os joelhos vestidos ladrilho morno cozinha com o vapor de ervas do chuveiro, colo as mãos e o rosto ao chão, respirando de breve aquela entrevista de mato do hemisfério norte, pensando então só um milissegundo em como as nossas casas não são nada tropicais, e daí olho por debaixo do armarinho de temperos,
o único móvel da cozinha, abro os olhos olho para frente.



Descobri hoje que o meu cachorro Toquinho,
dado morto desde há onze anos com o diagnóstico de cinomose
esteve vivo
todo esse tempo
escondido num buraco
enorme de um azulejo todo solto
por debaixo armarinho
vivendo como
não sei de que
O seu pêlo está amarelo como os meus dedos
talvez até mais
cego feroz já não me ama.

Projeto de vida para a lei Rouanet

Sinopse

decidir dói as costas
mais fácil chover
idéias opostas.


Justificativa (máx. 3000 caracteres com espaços)

Eu entendo hoje a vida segundo uma série de exercícios práticos, que se articulam sem resultados efetivos, de características insondáveis e caráter duvidoso. O exercício tão antigo de ser outro já não me basta eu tenho de ser to dos eu tenho de ter tu do eu tenho que sondar as já remotas possibilidades. Porque é tão difícil encontrar-te eu tenho de subsistir de formas inteiramente novas, o exercício de ouvir como um sabiá, de entender os números como uma criança, o de abrir as arcas como um moribundo. Essa lucidez de que me exercito just keeps me going. Eu, que por tantas vezes vacilei, que pela memória experimentei o horror, que pela minha feiúra experimentei a solidão dos coxos, hoje já não posso pensar em morrer como silvia ou como ana, não sem antes exercitar-me no ofício de um diminuído mestre kung-fu com os anos, metro e meio dos altíssimos picos nevados enevoados verdes flores picos chineses próprios ao kung-fu. silvia & ana, sisters in time, eu não entendo porque morreria ana senão por amor a silvia, ai é tão fácil sentir saudades de silvia sendo ana, tendo sido ana pressentindo ana. As duas acadêmicas incalculavelmente prodigiosas, eu que larguei a faculdade pelo exercício de botar-me sozinha todo o tempo como se daí necessariamente surgisse algo incrível tenho mais é de olhar-lhes o exemplo e pensar nele, veja bem, as duas escreviam nos intervalos dilatavam os intervalos com uma força imperiosa. Acho, contudo, que a mim não servem os intervalos. O meu corpo é grande e kapha dilatado em carnes, funciona quando quer, de modo que eu demoro um monte para realizar as tarefas mais simples, ponto para silvia porto paraná. A vida inteira é pouco (tempo) para a dimensão de minhas auréolas lunares, para os doces arcos da minha ousadia, pelo amor que tenho em admitir mudanças bruscas e sempre, e do meu amor por tu to do everything. Os anos passaram sem que eu tivesse atinado para esse simples modo, para o que tenho de jovem e de próprio, e fresco, mas eu não me ressinto mais de tê-los perdido, porque today i think of myself as blank sheet e eu tive que subir lá no alto muito alto tão tão alto e já não há como descer senão voando e não há como voar senão querendo. Bocejo. O mundo é todo muito risonho. Cochilo. Delícia. O meu ressentimento, a minha histeria descontrolável os meus espasmos o meu amor ferrenho falso amor para o Krishnamurti só fogo no rabo, esse amor possessivo ignóbil inegável, a minha carranca, a minha indisposição para acordar cedo e também o totem da marginália, as opiniões que defendo às lágrimas e sobre as quais secretamente me questiono ainda, tudo não passa do meu só meu de tu do exercício de subjetividade histriônica vista pelos redondos olhos de uma cobra-cega. Por entender que no fundo a vida é bonachona e belíssima, coisa que só os meus amigos mesmo meus amigos digeridos testados aprovados exaustos exaustivamente beijados repetidamente amigos, as ternuras de meus lábios me ouvem dizer, bem-querer a porra toda. Mas as palavras de verdade são sempre feitas para preencher silêncios (óia o HEIDEGGER, cartalografria biblioginecológica ao melhor gosto de silviana p.261) é por isso que eu digo, bobinho, que a vida é uma merda (mas bem juntinho bem pertinho aqui de mim eu pisco um olho e durmo em paz).


Tratamento anti-concepcional


To make better use of your life keep smiling, beije e fascine, seja leve loira lute. Eu tenho medo, ó silvia, ó ana, de não suportar as terríveis experiências que me têm aturdido e é por isso que os carinhos serão sinceros, livres, desimpedidos. Tomara mesmo viver até os três mile dois, mais de trinta eu quero sim para conhecer a alegria suave de saber lidar com gente e bichos, para jamais ser de novo confundida por tão nova, por curiosidade até, por que será que será e pelo óbvio de que será o que será e ponto. Me resolvo, hoje ó p.4 de abril num exercício ininvalidável de doçura na extinção da frieza e da apatia, um compromisso em ser gente boa. Será que eu me esqueci de alguma coisa?

Padrecito

aluga-se tratar com pamonha gasolina gás injeção 45km para, capas p/ sofá, peças para automóvel PARE PARA automóvel peças para automóvel






no posto de gasolina o cheiro de esterco comida e queimado, me deixam fazer a minha primeira ligação enquanto os meninos sentam no balcão para ver a novela das seis, oh my god. Eu não tenho para quem ligar nem o que dizer, eu sento no balcão também de mãos atadas e ninguém olha para mim. Estou feio e sujo, tão sujo, sou só sebo a pele começa a se soltar dos ombros a virilha coça o rosto brilha o fedor de dias eu ostento como uma digna novidade a todos os novatos que têm a idéia de me falar (“tão magro, pobre! quer um pão? te pago um pão amigo, pão e café” “sou magro de triste” “arruma ocupação pensa em ti” “sou magro há tempos” “não há dia que não seja belo! vem que te pago um pão!” “sou magro de família”). Pela lei da fome pela lei do homem nunca mais vou ver my baby e me enviam de carreta ao coração das trevas. Para cada vez que penso cada mísero detalhe que me ocorre a cada um e são demais eu arranco um fio de cabelo, para cada vez que penso em (mendigo cabeludo não faz carreira). Eu atiro a cabeça na janela do camburão e sonho com as mocinhas da beira da estrada, com seus pescocinhos queimados com suas saias de malha, debaixo de anúncios e placas me olham com medo, estou só de passagem. São tantos os dias é impossível pensar nesse calor as minhas mãos atadas por deus, tudo que eu peço é de volta a graça do tédio, de que me privou o crime. As horas vagas do campo cerrado o carro sobe e desce veraneio velha, meus olhos não abrem é impossível pensar com tanto sol, veraneio velha, eu arranco um fio de cabelo com o dedo mindinho da mão atada à outra e bato com o cocuruto no teto, veraneio. São tantas as horas, o castigo é mordaz, de olho apertado o bigode coçando o cheiro de pólvora do calibre do inimigo, a fumaça que sai do cano do carona tem o meu signo e a minha bênção, e para cada preá morto de jogo por meus capatazes eu tenho de arrancar mais de vinte cabelos. Nunca tive paciência para bichos nem para crianças, sou taurino do dia dez, gosto do cigarro Hilton e meu deus, o sol depôs a minha retina queimada o olho vermelho duro seco eu vejo tão pouco um único ponto embaçado onde decodifico as cores do céu e dos anúncios da estrada, deste céu estrangeiro que não ilumina my baby. Eu me descolei da vida como uma cigarra que abandona o esqueleto.

Atirado na terra, a garganta e os ouvidos cheios de terra, eu ouço os sons da velha casa, as mãos cravadas no chão eu sinto entre os dedos as formas domésticas, do seu corpo estragado seu corpo viril corpo sem qualidades. As gargalhadas dos velhos, saídas de entranhas tradicionais e ariscas, de entranhas que nunca viram a luz resistem há tento sem qualquer retorno efetivo, as gargalhadas cessam com o tempo mas eu jamais voltarei (a vê-la). Caído no chão o único argumento é o pulso insistente das minhas próprias entranhas, estas sim ansiosas pelo dia e pelo mundo, de tanto me ouvirem ruminar as suas maravilhas, pobres não sabem que este mundo não é mais o mundo de my baby. Jogado na terra, à margem da metrópole eu compro seu carro compro ouro pamonha gasolina capas p/ sofá trago de volta a pessoa amada amanhã em 3 dias em 3 dias 33 dias 3 dias 333 jogado na terra não há onde ir de que se riem os desdentados? Eu não entendo nada eu entendo tão pouco eu venho de longe eu sou magro gosto do cigarro Hilton eu solto pipa na rua de terra, eu mesmo desdentado só choro durmo evacuo como poucos, o seu útero quente é vácuo, brilhante auréola morada predileta faz tanto tempo e eu arranco um fio de cabelo. Eu chego assim em corpo aos subterrâneos me aguardam as cigarras debaixo da terra, no frescor da terra, pela hora de voar, eu me torno mais feliz quando retorno (mas para que, mas para onde?).