Minha avó, máxima musa das iluminuras
sua cara preta e suas roupas pernambucanas
castrou com as mãos
uma lâmina, agulhas quentes
num procedimento sem origem
o gato com que eu brincava na infância
castrado ficou
muito borocoxô
incapacitado de suas funções vitais
entediado e gordo
tornou-se homem
o gato dos meus dias de garoto
branco ágil de garoto
agora com dores nos ossos
brancos enfim
o gato bípede um homem quadrúpede
homem excêntrico e médio, cheio de caprichos
gato liso inflamado
despido costurado
deprimiu-se
morreu velhinho.

Despedida da casa da vó 1

Minha avó entreabriu a porta do quarto agorinha mesmo
pra me dar um daqueles recados doces de quando a gente está de visita. Ela sabe
que eu estou só de passagem, que eu nunca mais vou voltar a viver com ela, que a vida é assim mesmo, ela mesma está feliz do jeito dela ou melhor ela é
assim mesmo, avó cozinha
macumba, evita conflitos, não gosta de ler mas de ver filmes. Avó adora
canjiquinha, a sensação da borra do café ainda quente escorrendo-lhe pelo rosto, o grande mastroianni, linda cláudia cardinale / bagos de flores do manjericão roxo / nós da renda inglesa / agulhas quentes número quatro/ minha voz cantando why did you cry last christmas on the back seat / adora a sensação dos ladrilhos portugueses limpos nas entranhas, o sentimento do diabo verde desentupindo-lhe os sonhos ela pinta o cabelo com tonalizante de vermelho bordeaux vinho profundo cabernet-sauvignon-réaumur-sebastopol num coque trançado desfiado que deve pesar-lhe o equivalente a um terceiro braço
um terço barato enrolado na mão direita peluda mesmo em avançada idade, as pintas gordas
Abriu a porta porque sabia que eu estava pensando demais, para dizer que o culpado pela morte de Reginaldo dono da boate é o Felipe capanga da socialite Olívia me diz com um sorriso delicioso que ele foi preso e que vai pagar pelos meus erros
na novela das oito, porque sabe que eu não sei quem é Reginaldo eu entendo que ela quer me transmitir um dos seus próprios segredos eu sinto o seu hálito de chá por entre os dentes separados por raízes de ferro encravados no maxilar por uma máquina cirurgiã de lata que cobrou-lhe quatrocentos reais
por coroa para
que ela pudesse agora me sorrir tão lindamente com os seus olhos de criança, para
que ela pudesse mastigar triturar dissolver digerir os tenros rabanetes que lhe alucinam
Um dia em breve mais tarde já
já eu vou ler essas linhas e a avó estará morta.
Não descansará os joelhos: estará morta dos joelhos
reumáticos na poltrona moldada para suas banhas no quarto de tevê na casa com jardim no jardim esperança no norte do município no sudeste do estado no sudeste do país mais ao sul que ao norte do mundo se considerarmos para tanto o eixo de rotação que nos ensinam no colégio e
quando eu olho nos olhos doces da avó morena eu sei que a nossa vida não tem nada a ver com esse eixo e que o jardim esperança está no meio do planeta e que do outro lado, na china ou na rússia, deve morar uma velhinha magra cética de cabelos brancos e curtos sem dentes com o sorriso amargo e os olhos puxados
Avó tem os olhos redondos e semana
(talvez o outro lado do mundo seja o meio do mar pacífico, não sei)
que vem ela opera o joelho, que agora parece uma enorme
bola de água ou de gás. Deve ter doído pacas andar até aqui só
prestes a explodir eu
só para me dizer uma doçura, eu
acho que a avó está merecendo um abraço de despedida
daí todo mundo se entende um chororô e começa o chiado triste ao fundo de why did you cry last christmas on the back seat na voz de uma diva alcoólatra (eu não sou uma diva alcoólatra), mas a avó é
engraçada e se eu abraçasse ela agora ela ia fazer exclamações e me aprontar um lanche, uma trouxa, cadernos grossos e canetas decoradas, uma muda de begônia, uma pequena palmeira, a receita de uma simpatia complicada ela deslizaria
a unha pelas rugas que começam no canto do nariz, colocaria luvas de borracha e iria para o
jardim desenterrar um bulbo de mandrágora, aparar da esperança as folhas da sebe fazer cafuné nos xaxins
entender-se com as ervas rasteiras e sussurrar nos buracos das sementes palavras de carinhos e sentido que teriam tido sumária importância nos estudos etnográficos brasileiros
catalogadas em três volumes sob o título de “poemas misteriosos da velha bruxa fluminense” se para tanto
houvesse nascido a avó ao menos trezentos anos antes do que de fato. Hoje o mundo tem gente demais, e quando a vó morrer não vai haver tristeza alguma: a
morte é seu elemento,
sua terra
funda amizade.