Bright Mourning

há um bando de neuroses furtivas

por baixo da cama, atrás da geladeira

elas às vezes apodrecem deixam gosto

na água que parecia limpa uma glândula

na minha cabeça me fazem companhia

em questão de segundos organismos.


evoco-as com a oferenda de flores mortas

assassinadas eu as cravo na janela,

na mesa, no cabelo e em garrafas


minha vida está assim

estas bostas de flores


provocativas mãos de velha fingem

de mortas, riem fogem de mim


minha casa é uma rebelião comigo

muito longe do comando de comandar

qualquer coisa tão autônoma quanto

as panelas, os copos -

eles cheiram a coisas,

o capacho perfura os pés,

microondas explodem comida,

os livros, as músicas, o que pensam

de si mesmos dos outros

em voz alta as intenções mal vistas.


eu sou um espírito disto

isto é um espírito meu


em casa ler

é tão difícil o ruído

ele entra na cabeça

idéias as ordens

redundâncias que emanam

das coisas dos tempos bons e ruins

dos panfletos da história da matéria

eles entram na cabeça


resisto: vida de músculo nas manhãs

córneas arrebentam as janelas para brisa

revolver tanta cinza podre noite sangue

para que a chuva estanque no soalho

para que a tevê também adoeça e morra


mas na verdade a brisa e a chuva é que fazem tudo


adormeço pelos cantos pensando sempre

na fila dos bancos na dor de dente nos

que quiseram não estar aqui.

as palavras dão bicho e a louça da pia

palavrar agonia

de luvas somente


sem acordar o punho em riste

sem querer mexer com dinheiro

a água cessa de correr eu sinto

o triste gotejar das coisas

neste deserto conjugado de papéis

com todos os canais tapados de luz

cortada no escuro aguardo procuro

nesta excitante câmara hermética

impor minha própria pena a mim.)


a casa responde com pragas e calafrios:

mesmo os apartamentos modernos

cubículos de fábrica sujos de tempos

são senhoris como velhos casarões de vidro

produzem ruídos ósseos estalos zumbidos

gritos altos frios trincos -

eles entram sem aviso.


há uma teia de aranha

absolutamente desnecessária

vulgarmente bélica

entre o banco e a mesa

que utilizo todos os dias -

o tempo que for preciso

para desfiar-se sozinha

vai ser o preço dos meus diários


de malucos estou cheio

de páginas a preencher

minha casa está cheia muito cheia

sustentam-lhe os vácuos das pessoas

de dostoiévski da insurgência

da fome das drogas vasculares

polanski, klaus kinski, leminski

(esse direito tem na sua experiência

uma veia eslava e também muitas

outras veias moles e duras


há mais de mil apartamentos

no condomínio toneladas

de bibelôs inúteis

ameaçados pelo peso dos

meus vestidos das

dedicatórias

e um vazio atômico

vezes mil vezes um

simples prelúdio da cidade:


a casa é um dom maior

que me furta ao trabalho e sufoca

com sua poltrona, papéis de cigarro

sugere-me trabalhos mais graves

que se cumprem dentro dos olhos.

Novíssimo cristão

E disse:
você precisa trazer nada só a roupa do corpo:
e pode ser qualquer roupa
nada além da roupa do corpo
(na voz de um coroa sedutor)


Estão traumatizando-se ainda
para que então me odeiem
com certeza
as suas mães lhe batem ou têm a cara furada
para que
deslizem as mãos pelas chaves que
eu deixei do lado de fora
fechar da porta
tudo bem aberta
não há ninguém no banheiro
não há ninguém no box
no chuveiro nem no armário da pia
ninguém espia de dentro do teto rebaixado
ninguém dentro do canal de ventilação
Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se
que animal veloz é que está


Toda vez que eu entro em casa
esqueço as chaves
do lado de fora para quem
quiser trancar ninguém
nunca ninguém terá visto
Estão nascendo agora
os invasores como
como fantasmas de cinza
pouco violentos
violadores de mente aberta

INFORMAÇÃO : VIOLÊNCIA

A HUMANIDADE E EU
alcançamos neste instante o ápice de nossa experiência
agora o futuro desde os anos 90
o futuro está nas teleconferências e nas câmaras finas
celulares
cartão de crédito nos táxis que a qualquer lugar
vou a pé com chaves sem medo
ultrapassamos o futurus em milênios aoristos
agora
na salinha de espera,
pregando os novos evangelhos
poemas do benedetti


Eu desentupo a pia
vácuo off
desentupidor eu agora
Sentindo vibrar em mil intermédios
o teu corpo no cano de água
os teus braços quebrados esmigalhados de cristo
a cor de tanto sangue e miolos cristais
espalhados
no chão no noticiário
vácuo vácuo
saindo pelo ralo de fininho...

eu estaria disposta a esquecer
sob certas circunstâncias
circus dances under demons

LOOK cheap
passo apertado
cheirando a ovo
pisando em lírios
eu chego em tua casa da rua
todos os olhos dentro dos meus
esqueci a chave pro lado de fora
sim não é assim
ainda não sei
sim
o medo não existe
os nervos não têm vida própria
e disse:
demônio ocupa pouco espaço
deserto
o pensamento desafia o pneumotórax
liberdade
abra seu coração
antes
que seja tarde
que seja precisa uma lâmina
BOOM a man.