de dentes de fora

O mar comenta que a violencia nao é veloz nem eficaz



da suspensao da concha
da escuridao do seu ínterim
de entre a larva e a praia
do restar o tempo
desmoronado
do caminho que tao lento chega a nada e que a onda nunca deixa de exultar:
Meu corpo é um navio à deriva.


Como aquele lagarto brando que primeiro firmou os pés na areia havia guerreado tao bravamente contra si guiado tal vez pelas cores fraccionadas excitado de calor em uma pele desprezível louco acabado em tropeçar abismos
aquático, eléctrico, deslumbrante
lento entao como o diabo rasga a mole estrada prima
grava
a obsessao de seu corpo turvo
o seu ventre repleto de ganglios
coronada sua fronte de estrelas

urgente
de vagar
da garganta da onda
o grito primeiro: Este corpo é um navio negreiro!

(é tao fácil sentir essa carne
deslizar exata nesta pedra
exausta, justa
inflamando devagar até
romper-se numa chuva de plasma
como algo que é puro sexo mas nao pode seccionar-se,
romper justamente este limite

naquele calor
no recuo das costas erguidas, tirados ao léu
multidoes e redemoinhos revolteando à margem o que chega à margem
sonhamos tantos
vastos corpos ao mar...

e fez-se a fome ao redentor.


Mar matéria turva
goma de abismo irmao frente aos ares
leito de infinitos
úteros de coracoes
de água forte

Mar matéria turva
camara eléctrica música entranha,
caldo de clones, molusco mucoso,
volto a ti com a mirada úmida
de um delírio dentro teu

Brinda por tanto a saliva
Degola um mamífero enorme

Meu corpo é um navio guerreiro
e disse Vem transformar

paixao em tempestade
vastidao
de todas idades
invoco:
abre esta terra que sitia a liquidez
devasta o alto, violento
toma esse tempo
de assalto
e mito,
Vem





vaza esse casco que nos retém
rasga esse tempo
de proa
e
Vem

Meu

ESTOU PRESTES

a trair
a revolução
do meu corpo
de leis

a fugir como se isso ficasse:

TU

que modera a minha palavra
tão popular entre
as esferas
globulantes,
o meu sangue
escorrerá pelo teu
queixo
teu pescoço,
criança infame,
tua possível
vileza será
inaudita

por um auto de fé
uma aposta em

dois atos
sem tiros

segundos
e ascenção.

Aguarda pela tua morte,
lenta porque não
há outra forma
inteira de justiça

Aguarda pelo meu
povo que
te secreta em pranto:
se jogará aos teus pés
porque não há outro
homem nesta época

(nenhum outro homem!)

não há outro ohm em a trair o tempo
não há outro tempo a trair o ato

PORQUE NÃO HÁ MESMO OUTRO
QUE ANIQUILE O MESMO

tempo

morto


ato primeiro: queda


(falando muito rápido)
- Porque este corpo extenso pelasgo sólido negro
de sangue é uma nova verdade,
mas você mancha este corpo, Danton!
Temos que libertar as ruas e os canais do teu direito, Danton!
Agora que você já não pode vencer (cruzar) que já
não nos resta nada além do possível
eu quero ver

a tua cabeça restará
fora de minhas pernas
como símbolo da minha paixão

Digo, da nossa paixão...

Eu seria incapaz de cortar-te, Danton
e é mesmo vulgar esta lâmina
e eu tenho de usurpar o teu vulgo
e no fim eu tenho razão,
nem mesmo louco eu fiquei,
Danton
Danton,
fica só mais um pouco
pra sempre,
fica pra sempre...

deixa eu sentir o teu rosto

à face da ordem

finge! eu imploro, goza ao final

guilhotina em papel o teu numen



açougue

- Hm... Se esta fracção aqui descrita é, de alguma maneira, uma medida à dimensão total do universo, isso significa que ele não é infinito?
- Isso significa que ele tem um peso muito próximo ao infinito.
- Mas como se sabe quanto é tanto?
- Este é o maior número que conseguimos imaginar..
- E porque respeitar nossas capacidades?
- Os números são signos.
- As distâncias não são números.
- Sim, os pesos são números.
- Me parece que é grande a tua fé.
- Desmensurados sonhos geométricos de abismos e picos arábicos. Sou doutor apaixonado em álgebra vulcânica. Agora estudamos os números máximos e os números mínimos Observamos telescópios de varredura e microscópios em órbita Amplificações digitais de uma tenaz ansiedade...mito...sexo...
- Pergunto: te faz feliz?
- E isso é lá pergunta que se faça...
- Peço: uma prova
- Do que digo?
- De que posso confiar em ti.
- E quem disse que pode?
- É meu humilde desejo.
- Com licença, Navalha.
- Tenho algumas coisas em mente que gostaria de compartilhar com uma alma grave...Minha cara, na verdade, é a minha cara dentro da minha cara Minha testa é de ferro Sofro refração à vista humana...Tenho que trocar o sistema operacional Ando tendo problemas Entraves Reações virais...Será uma nebulosa à minha procura? Uma mensagem desencarnada?...Me diga, eu só pergunto, só pergunto. Sou olho seco. Depois do sono da febre, depois de ventos quentes, que tantos foram e vieram, levantei. Siento mis ojos al revés. Escucho hablar mi tío: así fue que Bach se murió... Quemandose la retina El sol me pone Puesta... Habré yo creado hormonas para sentir de vuelta el calor del siglo en mis mejillas? Que es, un motín, un éxito? El borde genético? Es que estoy quedando ciega? En una metamorfosis vampírica? Conocés la diferencia entre ojos y huecos? El blanco me suprime... Será el cielo así de translúcido?
- Onde?
- Aqui. Ao Sul. Esta luz é tanta, me torce.
- Espera...Onde faço o corte?
- Aqui. Na palma.
- Não sei do que você está falando.
- Da parte macia. Da mais histéril. Carne austral ultra violenta. Da polpa do dente, da polpa da flor futura fruta suculenta. Dos nervos da palma, dos ossículos da palma, do talhe oleoso do olho que me abres ao tronco. Nada mais.
- Pensei ter escutado uma proposta.
- Foi um pássaro algo rítmico que passou.

apuntamientos

apuntamientos musicales otros a las calles estas

si no puedes hablar castellano: imunização racional

dándose cuenta de estar perdido en una ciudad siempre pequeña: ruido de tren adentro del río

caminando en esta manifestación: calles de romances vivazmente desplazados: secos e molhados

en el borde de los terminales (horizontales): las cascadas del último último borde: bicicletas en velocidad: el frío del último tren: un pito y un grito: gratis

en el corazón de migraciones (el ministerio y el laberinto): mistério do planeta

para el amor hecho entre la desesperación y el metal público: electrónico a merced del alto cielo

por con la fuerza de los jubilados sin papeles romper la última, la magna hambre: zombie

para la curva final de corrientes rumbo al cementerio: invisibilidad y ruina: ondas de radio, parlantes de plástico

yendo en subte al encuentro de (bajar en la estación de nombre más zarpado): the devil in us

sol poniente en diagonal norte (avenida abierta en el angulo exacto como un agujero en una pirámide): antojar memorias de piedra en el cemento: pegar al cielo un portal tu proprio cuerpo limpio como una roca aunque lleno de mugre: interstellar overdrive

reconquista a las nueve de la mañana: rise above

nueve de julio por la noche de mi cumpleaños: lunfardo perdido, cansado, herido

33 orientales por la madrugada (es una calle común): el deseo terrible de estar adentro de un animal antiguo, no de vestir su piel sino de calentarse en sus anchuras: una voz, sólo, ó una cuerda, sola

si todavía no tenés la velocidad propria del humor: la frescura del viajero recién parido: jugar con sonidos bárbaros, pervertir la memória de la risa: música para ouvir

en el salón comedor con la tele prendida: “mataron a dos personas y a un boliviano”: el neón parpadea fuertísimo: por el horror de un retrato negro amarillo: por una cabeza

en la habitación compartida sin plata para ir al cine: vajilla ajena siendo fregada

en el cine: natsu no kazoku (familia de verano)

como se llama, que hace, de donde es, por donde va, que desea entre sus membros: tu persona (extranjera): 4min33seg

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I

28 de julho. Quando se rompe uma determinada parte do corpo, mais sentidos ali se concentram. Iluminação e intimidade, vidência do insuportável. Quando muitos homens caminham por um mesmo caminho, desenha-se uma cicatriz extensiva. Flash desativado. Quando um raio choca na terra uma corrente invisível trinca o firmamento e o vácuo instantâneo é sangrado de luz. A estrela que parecia viva e a notícia de sua morte 140 anos atrasada. Uma ligação interestelar (una llamada, um chamado), arranjo de palavras de morte. Encontraremos o gás do amor comum entre os milhares de gases de Vênus. Só não sei em que direção. Conheço os movimentos do meu abdômen. Eu sinto as estruturas do nariz tal que poderia desenhá-las. A carne irritada em absorver fumaça e cocaína faz parte de mim como a memória de ti. Me aperta a cabeça, me abre a cabeça (será que eu sempre escrevi assim, pronominando verbos?). Tua voz já está muito prejudicada, minha filha. Minha mãe não teria essa calma. Não consigo dormir porque não paro de tossir. Cheguei aqui nesta alcova e haviam sutis sinais demoníacos. Caminhando hoje por la boca descobri meu drama strindbergiano. Uma melodia monofônica que me chama por entre os efeitos do mundo. Uma campainha telefônica. A juventude sônica entrando na creche. Mas porque você veio pra cá? Mas porque? Que hacés acá si Brasil está lindo? Que hacer si cinquenta, CINQUENTA porcento de tudo que eu ganho é para imposto? Un cincuenta porciento. Antes eu dizia pros jovens Meu filho, abre un local pequenito, um negócio assim não precisa servir a ninguém teu sangue de beber. Meu filho mora no Canadá. Agora não mais. O capital daqui vai todo pro Brasil. Mas o que é o capital, minha senhora? Quem é que leu este livro até o final? E quem disse que termina? Que é um livro? A publicidade tosca com que vendem meu país e os pavões caducados que realmente conheci. Anda a chamar teu país pelo nome, dizem. Hoje em La Boca escutei pela primeira vez o português operário. Uma mulher caceteava seu filho em dublagem industrial. Meio psicótica, meio lésbica, meio paulista, meio inglesa, meio gorda. O céu opaco como cimento. POP. Flanei. Porque falava? Cálice por favor. Mais rum. Quero roubar seu filho e fazê-lo gemer. Este quarto tem o cheiro do último homem que se deitou aqui. La Boca dos meus sonhos. Suas curvas áridas ruas lojas de atacado sua entrevista de mar um peito concreto de fábricas desativadas, becos, tijolos marrons, ventos cheios de papeizinhos. Duro demais, duro delícia. Vai chegar uma tempestade de dinheiro, minha senhora. Aqui em La Boca, te juro. Jurar põe a Boca em beijo, só por isso eu recomendo. De resto faz mal, vaticina, enfraquece, brocha e rui. O bairro e o barro mais cinzas do mundo. Andrea disse que embaixo da ponte Avellaneda tem uma fila de gente pra cruzar o Riachuelo de barquinho, seu denso leito grafite. Disse que custa dois pesos. Assim atravessam porque TÊM de atravessar. A Avellaneda de Benedetti. Seu grande corpo cheio de lunares. Comer o que me aguarda depois da ponte. Apurar a violência física. Bajar por el Riachuelo en condición de basura poética.

II Tradução do português para espanhol em quatro etapas sobre I


28 de Julio. De Cuando se rompe Una cierta parte del Cuerpo, Lo Mas es concentrado en los sentidos. Iluminación y la clarividencia de la Intimidad insoportable. MIENTRAS muchos "hombres que Por un pastel por El mismo camino, si la cicatriz ancha dibujan UNA. Con Flash discapacidad. Un rayo de Cuando CAE la tierra "Una Grieta invisible corriente" El Cielo y El Vacío exsanguinate Destellos de luz. La estrella y que parecía vivir la noticia a su especialista de Muerte, 140 años después. Un enlace interestelar (Llamada UNA, Una Llamada), la disposición de las Palabras de la Muerte. Gas disfrutar de kilómetros de El amor entre Los Comunes de gas en Venus. Simplemente en la Dirección Qué sé. Se que Los Movimientos de mi abdomen. Siento Las Estructuras de la nariz para poder dibujar. La carne de absorción enojada El Humo y la cocaína es como parte de Mí El que recuerdo. Voltea la Cabeza, me da la Cabeza (él por escrito de que los verbos pronominales son Así?). Su voz ya es Muy maldita, mi hija. Mi madre en este tendria en calma. No puedo "puedo" No Dejar dormir a causa de toser. Llegar Aquí en esta habitación y habia signos sutiles demoníacas. Caminar Hoy por la boca mi drama strindbergiano encontrado fue. Una melodía monofónica que me llama de los Efectos del Mundo. Un timbre del Teléfono. Sonic Youth que trenzada la guardería. Pero debido Ha Venido que en esta lista? Por Pero ¿qué? ¿Qué Haces Brasil acá Sí es hermoso? ¿Qué HACER Otros CINCUENTA, CINCUENTA Por Ciento a tu alrededor que gano es para El Impuesto? Un CINCUENTA porciento. Antes me dije un "Mi hijo Profesionales Jóvenes, Jóvenes sin Los locales se abre, por su unión a la compañía en una Nadie Tiene Qué sirven para beber sangre su. "Mi hijo vive en Canadá. Ya no es asi. El capital por aquí ir a Brasil. Pero es la capital de manera que, señora? Quien lea este libro Hasta El final? ¿Y Quien finalice DIJO que este anuncio? ¿Qué es libro de la ONU? Publicidad venta Con El crudo del país millas de Los pavos reales y que realmente sabían como expirados. Que el país por un LLAMAR Su Su Nombre, Dicen. Hoy en La Boca por "trabajador de primera Escucha el tiempo portugués. Una mujer un su Hijo Cum doblaje en la Industria. La Mitad medios psicóticos lesbianas La Mitad de Sao Paulo, La Mitad del Inglés, La Mitad de Grasa. El cielo Sordo como el cemento. POP. Flan. ¿Por Qué Hablar? Copa favor. Más ron. Quiero robar un gemido de Su Hijo y hacerle. Esta última habitación de el hombre huele como que cuando yacía aquí. La Boca de mis sueños. Sus calles curvas áridas Almacenes por el alcalde de Al Pecho del mar restablecimiento de las Naciones Unidas entrevista Hormigón fábrica, callejones, ladrillo, marrón, Hinchada piezas Por El papel del viento. Demasiado duro, la alegría duro. Llegar a Dinero lluvia una, señora. Aquí en La Boca, se lo juro. Jurando teléfono móvil de Boca beso, Sólo ESO mediante el cual recomiendo. Ademas Herido, predicado se debilita, cepillo y Rui. y El barrio la arcilla Más sobre Las Cenizas del Mundo. Andrea DIJO que, Bajo el Puente Avellaneda Cuenta Con Una Línea de personajes de El Riachuelo cruz de la Embarcación, Su Lecho de grafito denso. Eso cuesta DIJO pesos. ¿Por Qué debe Pasar una Pasar. El Benedetti Avellaneda. Su Gran Cuerpo de la luna completa. Coma lo que me esperaba despues del puente. Medición de la Violencia física. Bajar Por El Riachuelo es-Con El Día de la poesía.


III Tradução do espanhol para português em duas etapas sobre II


28 de julho. A partir de quando eles quebram uma determinada parte do corpo, o MAS está concentrado nos sentidos. Luz e visão do insuportável de Privacidade. ENQUANTO muitos "homens que para um bolo da mesma maneira, se você tirar uma cicatriz grande. Com Flash desativado. Um raio de CAE Quando a terra" A Crack corrente invisível "Heaven and The Void desangrar Flashes de luz. Star e parecia viver a notícia de sua morte especialista, 140 anos depois. Um link interestelar (um pedágio, uma chamada), o arranjo das palavras de morte. Gas desfrutar milhas de amor do Commons de gás em Vênus. Simply no endereço. Os movimentos do meu abdômen. sinto As estruturas do nariz para desenhar. Meat Smoke absorção irritado e cocaína é como uma parte de mim A única que eu lembro. Vire a cabeça, dá-me a Head (ele escreveu que os verbos forma pronominal?). Sua voz é muito sangrento, minha filha. Minha mãe teria neste calma. Eu não posso "eu posso" Não Deixe o sono por causa da tosse. Getting Aqui nesta sala e há alguns sinais sutis demoníaca. Walking Hoje, na minha boca strindbergiano drama encontrado. Uma melodia monofónico me chamando sobre os Efeitos do Mundo. Um telefone tocando. Sonic Youth trançada que o berçário. Mas porque Has Come aqui? Para Mas o quê? "O que você está fazendo aqui Yeah O Brasil é lindo? O que fazer outro cinquenta, cinquenta por cento em torno de você quem vai ganhar é para o imposto? cinqüenta por cento. Antes eu disse:" Meu filho Jovens Profissionais Juventude sem Locals abre, ligando-se um ninguém empresa tem que servir para beber seu sangue. "Meu filho vive no Canadá. Não é mais assim. Capital aqui para ir para o Brasil. Mas é o capital de modo, de que, senhora?" Quem vai ler este livro para acabar? "E quem disse que terminou este anúncio? Que Hoje, o tempo de trabalho das Nações Unidas é um livro? vendas de publicidade em milhas bruto do país dos Pavões e realmente tinha gosto de expirado. Esse país, por um chamado pelo nome dele, por exemplo. Boca na primeira "Ouça Português. Uma mulher de montar uma porra Filho na indústria. Half Half lésbica psicótica mídia de São Paulo, Meia Inglês, metade Gordura. O céu Esquerda como cimento. POP. Pudim. Por que falar? Por favor Copa. Mais rum. Eu quero roubar um gemido e deixou seu filho. Esta última sala cheira a homem deitado aqui. La Boca dos meus sonhos. Suas ruas curvas árido lojas pelo Prefeito do tórax Mar restabelecimento das Nações Unidas entrevista fábrica de concreto, becos, tijolo, marrom, partes inchadas pelo papel de vento. Muito difícil a felicidade dura. Dinheiro chuva atingem uma senhora. Aqui em La Boca, eu juro. Prometendo beijo Boca celular, só com pêlo eu recomendo. You Hurt, pregou enfraquece, escova e cai. A argila do distrito e mais sobre as cinzas do Mundo. Andrea disse que, sob a Avellaneda Puente tem uma linha de caracteres de Cross Creek para o barco, seu grafite lecho densa. Que os custos SAID pesos. Por que deveria a Go Go. O Avellaneda Benedetti. Seu corpo grande da lua cheia. Coma o que eu esperava depois da ponte. Medição de violência física. Down By The Creek é o dia da poesia.



IV A.M.

28 de julio. Cuando tal parte del cuerpo se rompe, más sentidos allí se concentran. Iluminación y intimidad, visión del insoportable. Cuándo muchos hombres caminan por un mismo camino, se dibuja una cicatriz extensiva. Flash apagado. Cuando un rayo encocla en la tierra, una corriente invisible morde el firmamento y el vacuo instantáneo es sangrado de luz. La estrella que parecía viva y la noticia de su muerte 140 años retrasada. Una ligación interestelar (una llamada, um chamado), disposición de palabras de muerte. Encontraremos el gas del amor común entre los miles de gases de Venus. Simplemente no sé en qué dirección. Conozco los movimientos de mi abdomen. Siento las estructuras de la nariz de tal forma que las podría dibujar. La carne irritada por absorber el humo y la cocaína hace parte de mi como el recuerdo de ti. Me hincha la cabeza, me rompe la cabeza (me parece que estos verbos pronominales afectaran mi portugués). Tu voz es ya muy dañada, hija mía. Mi madre no tendría esa calma. No puedo dormir porque no puedo dejar de toser. Llegué a esta alcoba y habían sutiles signos demoníacos. Hoy caminando por la boca he descubierto mi drama strindbergiano. Una melodía monofónica que me llama por entre los efectos del mundo. Un timbre telefónico. La juventud sónica entrando en la guardería. Pero por qué has venido para acá? ¿por qué? ¿Que hacés acá si Brasil está lindo? Que fazer se cinqüenta, CINQÜENTA por ciento de todo lo que gano es para el impuesto? Cinqüenta porcento. Antes yo decía a los jóvenes Hijo mío abrí un local pequeñito un negocio así no necesitas brindar tu sangre a nadie. Mi hijo vive en Canadá. Ahora no más. Nuestro capital se va todo a Brasil. Pero que es el capital, señora? Quien es que ha leído este libro hasta el final? Y como es que termina? Verdad que es un libro? La publicidad trucha con que venden mi país y los pavos tarados que yo realmente he conocido. Andá a llamar tu país por su nombre, dicen. Hoy en La Boca escuché por la primera vez el portugués obrero. Una mujer daba una paliza en su hijo con doblaje industrial. Medio psicótica, medio lesbiana, medio paulista, medio inglesa, medio gorda. El cielo opaco como cemento. POP. Zarpé. ¿Por qué hablaba? Cállate una copa por favor. Más ron. Quiero robar a tu hijo y hacerle gemir. Esta habitación huele como el último hombre que se acostó acá. La Boca de mis sueños. Sus curvas áridas calles tiendas por mayor su entrevista de mar un pecho concreto de fábricas clausuradas, callejones, ladrillos marrones, vientos llenos de papelillos. Re duro, re rico. Va a llegar una lluvia de dinero, señora. Aquí en La Boca, te lo juro. Jurar pone la boca en beso, sólo por eso lo recomiendo. Además hace mal, predice, debilita, ablanda, tumba. El barrio y el barro más cenizas en el mundo. Andrea dijo que bajo el puente Avellaneda hay una fila de gente para cruzar el Riachuelo en un barquillo, su denso lecho de grafito. Dijo que cuesta dos pesos. Así lo atraviesan por que TIENEN que atravesar. La Avellaneda de Benedetti. Su cuerpo ancho y lleno de lunares. Comer lo que me espera después del puente. Apurar la violencia física. Bajar por el Riachuelo en condición de basura poética.


10 de julho. Os barulhos dos coletivos arrastam faixas de música eletrônica. O ruído das motos vibram como um celular em cima da mesa. Ao escutar determinadas seqüências, as células produzem moléculas em forma de T. Quem garante? Não, não há garantia. Lençóis cheios de corpos em cópula. Árvores gigantes com rostos de deuses. Uma copa magnífica de eco de fumaça de cheiro podre e bom. Saímos atrasados de casa e quando chegamos ao parque havia acabado de anoitecer. O céu estava fresco. O céu argentino é plúmbeo, comentamos, uma quase verdade dos nomes. Christian quer matar um dos patos da lagoa e cozinhá-lo como jantar. Um senhor conta orgulhoso a Simon de como um único casal de ranas-toro que trouxe à Colômbia há vinte anos se havia reproduzido de tal maneira frenética que teve de deixá-los na rua e então povoaram todo o país com sua prole e ferozmente extinguiram outras espécies de ranas. A montanha sagrada. Sapos brasileiros que fazem barulho de maquinaria quebrada. Ranas que hacen coger por los huecos. Chumbo e prata. Prata de matar lobisomem, mancha de limão galego, casco de colonizador. Chumbo de matar rato, arame de anzol, chumbo pesado, chumbo bom. Un hombre lobo americano en londres, en los bosques, el libertador. A gente manejando seus territórios, deslizando pelas avenidas, enviando mensagens precisas com grunhidos simples e genéticos. Eu gosto de você. Passa-me a blusa. Somos de lugares distantes. As grades do zoológico. Comunicar-se sem pistas, sin huellas. Gritos despatriados. Matrimônios de bruxaria. A comunhão da droga. A qualidade da língua. Diversão, como dizem à moda. Coger por los huecos. Coger pelos espaços das grades. Coger por agujeros negros por la cola de estrellas que estão vindo, que trazem o fogo de desde todas as direções. Hacia todas las direcciones. O fogo das deformações inesperadas. Fabíola não quer filmar o parto da sua irmã. Na cesariana me puxaram pela cabeça e me legaram um corpo débil. Minha mãe contou meus dedos. Janaína nasceu pelas pernas e não se sentiu doente. Não assistiu tão tragicamente ao germe de sua falência pulmonar. Tinha mãos morenas, não fumava, sentia as ranhuras da palha molhada. Minha primeira respiração em vhs. O sopro da discórdia a um corpo dessubstanciado, Um parasita flagrado com faca em pleno desenvolvimento. Arrancado pela cabeça, centauro, metal, sangue e farinha. O desenvolvimento perverso de dispositivos offline. O ar como um frio que asperge fumaças. Uma placa de prata. O ar sufoca, é como um rio de água muito gasosa à cuja superfície chegamos de tempos em tempos, diz o marido de Lady Chatterley. O êxtase, um êxtase, em inglês não há diferença. A carne numa cuba de alumínio. Um cubo de carne nua. Alumínio limpa a carne, alumiação. A carne, por sua vez, tem a densidade do hormônio do prazer e do desespero. Prova do suco da bomba, me atravessa com o teu. 06 DE JULHO. Uma vez mais a vida chega ao ponto de querer registrá-la o mais directamente possível. Diretamente. O ponto, como o ponto da bala, o ponto da massa. O ponto de embarque. Densifica, passa à redução, expande, derrama e pede para ser devorada. já não pode mais ser revolvida. Laura entra em casa como entrando em cena. Por eso yo salí de Bogotá, allá uno que trabaja con teatro es un payaso. Noite de estréia. Os olhos dele estavam vermelhos e baços, uma onda ridícula de base e ansiedade. Sua maneira de mostrar-se à mim, à noite, despojando-se das distâncias, frágil como um carneiro com as pernas pra fora da vagina da mãe mas com a cabeça ainda dentro, como uma deformação do corpo da mulher. Frágil cartilagem primitiva, animal incompleto (é ainda menos que um parasita). Não chegará a caminhar. Sabe que algo está errado mas não pode ver o que é, está colgado, acontece que sua cabeça está numa redoma de carne. Vinga-se de mim, sabe vingar-se de mim, sabe suceder às minhas falas. Isso é raro. Porque conheci pouca gente. Não passo de uma criança, são apenas três e meia e você já está louco demais. Não vejo nada de errado em explorar a aparência. Gosto da palavra urbana. Crises podem ser caricaturais. Orgasmos podem ser engraçados. Tudo pode ser bom ou ruim, bom ou ruim, bom ou ruim. Amanhã buscarei um edredom, uma blusa preta, um bom cachimbo e um livro que se passa no parque lezama. As meninas falam sobre este livro na sala. A ti no te quiero mucho. Nada que decir, y también ellas callan. Amanhã não buscarei ajuda. O desespero em que amanheça depois de uma noite de cocaína não existe nos colombianos. A necessidade apavorante de criar uma caverna. Quando amanhece no parque lezama estou do outro lado da fronteira, jogada pelos lagos aterrados de crianças, falando um português reduzido aos meus antigos vícios, já sem o manto, sem a experiência do plano seqüência. Minha língua entra em convulsão durante o sono, pornográfica, interrompida, destrutiva. O outro acorda maníaco, e dorme como um maníaco. Dormir com ele outside the cave and wake up inside. Fugir dos tigres que rondam os túmulos. 07 de julho. Substituir clandestinamente o “Libro de quejas y sungerencias a disposición” por um “Libro de quesos y sungerencias a disposición”. As fotos online desapareceram. Chegou o e-mail com o código pra sacar a grana. O horóscopo anuncia dias de recolhimento com a lua nova. A lua mesmo eu não vi, bebi, quebrei o nariz Me sinto enjoada quero comer

perro de tres patas

te acuerdas de la fuerza que tenías?

lembro não senhor
não nasci com um ouvido musical
tenho pouco poucos prazeres tão violentos quanto caminhar
dizem que sou uma mulher violenta que eu continuo sendo, caminho sem poder caminhar
dirão que morri pelo que fui isso será mentira:
morrerei por nada

como então vivi de coisa alguma, caminhei
para comer do mundo há de pagar com sangue, escutei
calada estarei calada
gritei sozinha as coisas carecem de semelhança,
gritei da colônia às madrugadas que frequento
sem poder
que não
ser livre
é loucura

a
estes membros fantasmas que doem quando avanço
o
sinal noturno de cidade s s a t é l i t e s s
o
uivo entalado por deformações de raça
muitas vezes perdida, cansada, ferida
sob a multidão invisível
light and blue
as janelas,

rua

Potência


sublime


cadela

sem dono: eu
estou para escrever uma exortação à sobrevivência na lava, à transmutação coletiva em bactérias anaeróbias, à amputação dos membros e à prática sexual extrema, respiro ao largo dos anos imaginando a nostalgia do ar, imaginando o elogio e a crítica do gozo apnéico, sentindo nos flancos o golpe de ar que vai me abater num único assalto centenas de milênios antes da insurgência vulcânica que enfim vencerá (cruzará) a fumaça o lixo o ruído a gente,
que destruirá inexoravelmente os meus escritos e as cidades que foram e a terra que engoliu a pata e o trem que atravessou a pata os pássaros que engoliram os vermes que corroeram
a pata morta pata terra pata pata o que de tudo é pata que o que foi
não é mais

que vos que me calentaste candela
grande rua grande noite mãe primeira
grande seja o seio da cidade e livre
enorme o clamor dos teus filhos

às vezes tenho vontade de escrever sobre coisas sobre as quais
não tenho qualquer conhecimento
como uma criança endemoniada, sem polegares
com três golpes certeiros três moedas
devasto a terra em que ainda tremem
as três cabeças de meu antecessor
direto na história dos ícones que
adornam os prédios mais centrais
sob os quais os índios os máximos
reis de todos lados sós agora tremem
sob uma mitologia canina caminham
meu lado forte ao lado deles
meu lado fraco aos automóveis
marchamos aos montes de lixo
e destroçamos a carne
e devoramos os ossos.

Grande rua grande noite mãe primeira cadela
Grande seja o seio da cidade a liberdade
Enorme clamor dos teus filhos.
estoy
caminando
avenida lecho inmenso de oscuridad, un horizonte que me da ganas religiosas;
navegando por la niebla perpetua que acaricia las cimas de las selvas, animal secreto en la madrugada de los pueblos;
transformando los ojos para el tiro perfecto, mirada desinhibida
en la mano posada trémula sobre la piel podrida de la tortuga,
en la abertura expresa genital cristalina de las calles amplias como poderosas porcelanas,
en la avenida que sigue a lo ancho al fondo de la ciudad y pronto despedaza en alturas distintas,
en viaductos y subterráneos, como tomada por asalto,
en panorámicas casi insoportables
como las obsesiones que nos atraviesan las ideas como mareas de automóviles,
como almas enlazadas devoro los tiempos vacíos, si, mi boca es bastante amplia, si, puede meter la mano en mi garganta, no, yo no vomito, si, yo quiero mucho
eso de estarse siempre así loca de pasión:
mira, cuantos miedos semejantes ¡mira
sin miedo
mira!
la oscuridad deslustrada esconde meteoros
y por aquí no hay nada suficiente miente nada: el mínimo es demasiado mucho, un mundo
surge del hiato mudo a todos en cada minuto
en cualquier momento
adentrar galerías y catedrales para huir de la condición
bajo el cielo de la libertad
de que expandir es masacrar, de que las pasajes transversales llevan a pasajes aún más amplias, de transmisiones incompletas de nuevas verdades
de que antes que se pueda contar de la conquista habrán otras hecatombes:
la humanidad y yo
alcanzamos ahora, ya, la culminación de nuestra experiencia,
palabra que no constriñe:
seguimos en la lluvia perpetrando mutaciones:
brindemos por eso, fumemos a las calles inventadas por cobardía, bebamos juntos del fuego,
adversario único de la concretud de las vías
pesadas en el esplendor de publi cidades destruidas por el gobierno
de placas que señalan igualmente los cuatro extremos
oceánicos arrastrando magnéticamente
mi cuerpo al corte de un primer viaje.
minhas entranhas já não vibram cheias de vontade, já não dilatam em câmaras o conjunto já não provocam mistérios na carne ampla e dissemelhante
minhas entranhas sangram moles feridas, igual quando sozinho
quando deixado sozinho o sol se põe
e não se pode fazer nada,
e já não posso manter meus olhos abertos, eu vejo a luz cair por uma fresta e adormeço
sinto uma vertigem incontrolável por dentro, de um ponto exato
eu vejo do prisma do sangue
cercado por lobos meu útero
se esvai de cansaço, se aproxima a matilha
por muito aguardou a matilha

até o romper de músculos

de machos velhos armados com metais velhos forjados
com vozes de veludo amarram minhas pernas acariciam minhas pernas ao que miram meu rosto contorcido então raspam-me o leito não tiram nunca de dentro suas garras frias até que se aniquile a própria idéia do calor até que a câmara solte-se do coágulo num ruído agudo e volumoso e você já pode ir para casa
eu estou para atravessar a avenida e eu nem posso estar de pé
e nem dói nem nada, ou melhor,
eu não faço força, eu tento estar ao sol,
o útero se deixa rasgar, o útero inteiro ergue-se ao corte, ele persiste em sua forma mesmo sob ataque frontal: não desaparece, não volta ao barro, não participa nem sofre com o flagelo
o que sinto que tenho não passa de um tremor localizado
distribuindo numa ação direta a potência que então concentrava entre todos os homens, em ondas, perdendo intensidade de acordo com o afastamento radial do epicentro mas sem jamais chegar a zero
meu corpo alimenta uma cidade desconhecida
e as avenidas que cruzo de olhos fechados como setas
e entre nós esta rede de carne como uma idéia prematura
como se a cabeça transferisse toda sua importância ao ventre
como se ali, enfim, um olhar se concretizasse, depois do fim...

como estivessem os canais do desejo preenchidos de alarme
eu permaneço calada, eu não me mexo e nem faço força
a máxima intimidade oferece jantares a grandes médicos, e mais
o sangue escorre pelos canais e cai numa cuba refrigerante, e instala-se o frio, e o estéril trauma, e o sangue será jogado na privada, e tudo será banhado com álcool, e a ferida será deixada sozinha e sem nenhum ritual de paz

Ao pai indócil

Há uma vida naturada de nudez
há seis semanas: por dentro substâncias
me entontecem, fui capturada ao acaso nos baixios pela cidade velha: não será assim tão fácil deixar-me, disse
aquela terra de que venho
da qual não sou, da qual não nasci (ainda que sobre ela tenha nascido muitas vezes)
para qual não vou nem volto nem
mais uma vez, espero
há uma hora e meia espero com as atenções ao ventre pelo ônibus dos naufragados: parece que já não virá
por um ano e meio imaginei e imaginei que o problema fosse a falta, a ausência de segredos, imaginei que por isso tivesse sido incapaz de adorar-me mas eu te amo,
tu me disseste, eu te amo ainda.

Não são teus filhos que se multiplicam, não são meus filhos estes nódulos suturados ao leito:
são ao outro, são ao sol

os vácuos dos caminhões

descolam minhas pernas, lançam muros de amor e de ar
fazem uivar a restinga que cobre as beiras ela uiva raquítica;
os motoristas acenam com braços espessos de aventureiros acorrentados: a um pedido ergueriam ao colo na boléia acariciariam por tanto o tempo do nosso ventre com grossos modos de horizontes
em gargalhadas, gargalhadas idênticas

o indizível circula

livremente nas estradas, ao que os recados enfrentam mortalidade integral:
o vento soca minhas preces na garganta, o vento estende as intimidades até doerem
sujo e seco soca goela a baixo este mundo de latas, este derramamento de asfalto que faz a terra cravada secar de desgosto, que expande os sentidos das almas livres, este acidente grotesco que é ao ventre a única salvação
ao meu ventre em camadas uma pérola quente de carne este bafo de óleo ao rumor agudo ribombo de dentro da câmara rubra bexiga latente irreconhecível entranha dolorida de vida de fato

o aborto por atropelamento:
a maior necessidade, o arrasamento plástico da contingência primeira da vida, o crack, a destituição da potência da língua pela falência do músculo múltiplo abrigo, pela sucção do ânimo exterminar um coração milimétrico
ao invés de vê-lo crescer conhecer os prazeres do ânus, escrever este livro de dramas pré-natais, ao invés disso
assumir o risco de explodir em movimento, de estraçalhar estas terras mortas e de ser estraçalhada por elas: imensas são as minhas graças, imensos os predicados das águas que frequento
há uma vida e meia
estou vidrada neste instante
de giro para ver surgir obsessões, outras obsessões.

Em breve, quando o ônibus passar por mim e eu houver permanecido na beira da estrada
em breve serei esta poeira suja e seca dos redemoinhos
em breve vagaremos em silêncio pelas pedras, os teus olhos aflitos de culpa, teus olhos de garoto
garoto que reza sem entender o sentido de rezar, que arde em febres quando prestes
a comer, a dizer, a fugir.
Eu detesto que você seja tão tolo, mas o teu pavor me seduz irrestritamente, o teu pavor me dá vontade de comê-lo
inteiro como a uma ratazana branca

mas agora
mas agora já ando tão firme no sentido do poente, novamente o poente, hoje
portal alvejado e fatal expõe a derme translúcida escaldado o cosmos:
eu estive a espiar-te do outro lado
em sonhos e em devaneios aprendi
a como olhar do ângulo fortuito, a como utilizar-me da paralaxe como atingir a dimensão dos glóbulos, das câmaras, a mirar a espuma os interstícios dos fantasmas, a vida como um rio cheio de ondas salgadas, de nuvens de areia etc.

Suja e seca espero já sem poder esperar, prestes a esquecer-me uma última vez na incandescência máxima a que se chega nas idéias
prestes a curvar-me diante do primeiro erotismo

eu volto a escutar

o metal altíssimo das estradas, os pistões
que hão de calar-me, colar na minha pele arrancá-la, que hão de romper a contenção dos organismos cheios de luz, saciar o ventre ansioso por estrelas..

À tua vista irradiei desejo pelos quatro membros
escorreu por entre as pernas, colou no céu

há seis semanas

que dia é que o sol esteve mais vermelho? que dia é que a pedra esteve mais fria?
qual é a hora dos bichos que vivem em túneis, da terra vazada que horas rastejam elásticos para fora para que eu reine no silêncio do mato virgem e prenhe?
a restinga não oferece abrigo, é uma floresta infante, denso domínio de corujas anãs, de lagartos chatos e longos, de cobras raras orquídeas amarelas
vaginas amarelas
escorrendo sol, prenhes de sol, quase extintas, legadas ao sol
na beira da estrada
estou vivendo o fato de que estive prenhe, sempre estive, de que não resta mais espaço no ventre
para vazios, palavras, câmaras, instrumentos de lavoura, de tortura, mãos inteiras nem meninos cristãos nem suas mãos inteiras

meu ventre está cheio de si e de sangue, redondo e duro
ruminando os primeiros rumores
ignorando o golpe iminente como as trevas são a profundeza anterior ao luzeiro
doendo com a força da incontinência titânica, com a força da pedra mole e rubra, sempre mole e rubra dos abismos de satã.

eurus

na terra morta reconhecemo-nos sem alarde
na terra morta nossos hábitos representados por pedra e água e o sol que fustiga a cena,
por uivos ultrasônicos que mais parecem silêncios


vagando eu sinto de volta membros adormecidos há tanto, eu
faço uma prece por segundos encontros, por que sejam dóceis os anos;
o vento soca minha voz na garganta, o vento estende o passado e rumina:
cada gesto seu me surpreende em intenção como uma agulha que escapa do bordado
como a nuvem de areia que revolve dentro da onda,
como as conchas cor de carne cozida,
como esta lama tão espessa tão densa tão plácida que até dá vontade de comê-la:
a lama infestada por caranguejos minúsculos, estraçalhada por seus túneis secretos a lama treme como
seus dedos sangrados na boca
aberta feroz do tempo