Ao pai indócil

Há uma vida naturada de nudez
há seis semanas: por dentro substâncias
me entontecem, fui capturada ao acaso nos baixios pela cidade velha: não será assim tão fácil deixar-me, disse
aquela terra de que venho
da qual não sou, da qual não nasci (ainda que sobre ela tenha nascido muitas vezes)
para qual não vou nem volto nem
mais uma vez, espero
há uma hora e meia espero com as atenções ao ventre pelo ônibus dos naufragados: parece que já não virá
por um ano e meio imaginei e imaginei que o problema fosse a falta, a ausência de segredos, imaginei que por isso tivesse sido incapaz de adorar-me mas eu te amo,
tu me disseste, eu te amo ainda.

Não são teus filhos que se multiplicam, não são meus filhos estes nódulos suturados ao leito:
são ao outro, são ao sol

os vácuos dos caminhões

descolam minhas pernas, lançam muros de amor e de ar
fazem uivar a restinga que cobre as beiras ela uiva raquítica;
os motoristas acenam com braços espessos de aventureiros acorrentados: a um pedido ergueriam ao colo na boléia acariciariam por tanto o tempo do nosso ventre com grossos modos de horizontes
em gargalhadas, gargalhadas idênticas

o indizível circula

livremente nas estradas, ao que os recados enfrentam mortalidade integral:
o vento soca minhas preces na garganta, o vento estende as intimidades até doerem
sujo e seco soca goela a baixo este mundo de latas, este derramamento de asfalto que faz a terra cravada secar de desgosto, que expande os sentidos das almas livres, este acidente grotesco que é ao ventre a única salvação
ao meu ventre em camadas uma pérola quente de carne este bafo de óleo ao rumor agudo ribombo de dentro da câmara rubra bexiga latente irreconhecível entranha dolorida de vida de fato

o aborto por atropelamento:
a maior necessidade, o arrasamento plástico da contingência primeira da vida, o crack, a destituição da potência da língua pela falência do músculo múltiplo abrigo, pela sucção do ânimo exterminar um coração milimétrico
ao invés de vê-lo crescer conhecer os prazeres do ânus, escrever este livro de dramas pré-natais, ao invés disso
assumir o risco de explodir em movimento, de estraçalhar estas terras mortas e de ser estraçalhada por elas: imensas são as minhas graças, imensos os predicados das águas que frequento
há uma vida e meia
estou vidrada neste instante
de giro para ver surgir obsessões, outras obsessões.

Em breve, quando o ônibus passar por mim e eu houver permanecido na beira da estrada
em breve serei esta poeira suja e seca dos redemoinhos
em breve vagaremos em silêncio pelas pedras, os teus olhos aflitos de culpa, teus olhos de garoto
garoto que reza sem entender o sentido de rezar, que arde em febres quando prestes
a comer, a dizer, a fugir.
Eu detesto que você seja tão tolo, mas o teu pavor me seduz irrestritamente, o teu pavor me dá vontade de comê-lo
inteiro como a uma ratazana branca

mas agora
mas agora já ando tão firme no sentido do poente, novamente o poente, hoje
portal alvejado e fatal expõe a derme translúcida escaldado o cosmos:
eu estive a espiar-te do outro lado
em sonhos e em devaneios aprendi
a como olhar do ângulo fortuito, a como utilizar-me da paralaxe como atingir a dimensão dos glóbulos, das câmaras, a mirar a espuma os interstícios dos fantasmas, a vida como um rio cheio de ondas salgadas, de nuvens de areia etc.

Suja e seca espero já sem poder esperar, prestes a esquecer-me uma última vez na incandescência máxima a que se chega nas idéias
prestes a curvar-me diante do primeiro erotismo

eu volto a escutar

o metal altíssimo das estradas, os pistões
que hão de calar-me, colar na minha pele arrancá-la, que hão de romper a contenção dos organismos cheios de luz, saciar o ventre ansioso por estrelas..

À tua vista irradiei desejo pelos quatro membros
escorreu por entre as pernas, colou no céu

há seis semanas

que dia é que o sol esteve mais vermelho? que dia é que a pedra esteve mais fria?
qual é a hora dos bichos que vivem em túneis, da terra vazada que horas rastejam elásticos para fora para que eu reine no silêncio do mato virgem e prenhe?
a restinga não oferece abrigo, é uma floresta infante, denso domínio de corujas anãs, de lagartos chatos e longos, de cobras raras orquídeas amarelas
vaginas amarelas
escorrendo sol, prenhes de sol, quase extintas, legadas ao sol
na beira da estrada
estou vivendo o fato de que estive prenhe, sempre estive, de que não resta mais espaço no ventre
para vazios, palavras, câmaras, instrumentos de lavoura, de tortura, mãos inteiras nem meninos cristãos nem suas mãos inteiras

meu ventre está cheio de si e de sangue, redondo e duro
ruminando os primeiros rumores
ignorando o golpe iminente como as trevas são a profundeza anterior ao luzeiro
doendo com a força da incontinência titânica, com a força da pedra mole e rubra, sempre mole e rubra dos abismos de satã.

eurus

na terra morta reconhecemo-nos sem alarde
na terra morta nossos hábitos representados por pedra e água e o sol que fustiga a cena,
por uivos ultrasônicos que mais parecem silêncios


vagando eu sinto de volta membros adormecidos há tanto, eu
faço uma prece por segundos encontros, por que sejam dóceis os anos;
o vento soca minha voz na garganta, o vento estende o passado e rumina:
cada gesto seu me surpreende em intenção como uma agulha que escapa do bordado
como a nuvem de areia que revolve dentro da onda,
como as conchas cor de carne cozida,
como esta lama tão espessa tão densa tão plácida que até dá vontade de comê-la:
a lama infestada por caranguejos minúsculos, estraçalhada por seus túneis secretos a lama treme como
seus dedos sangrados na boca
aberta feroz do tempo