10 de julho. Os barulhos dos coletivos arrastam faixas de música eletrônica. O ruído das motos vibram como um celular em cima da mesa. Ao escutar determinadas seqüências, as células produzem moléculas em forma de T. Quem garante? Não, não há garantia. Lençóis cheios de corpos em cópula. Árvores gigantes com rostos de deuses. Uma copa magnífica de eco de fumaça de cheiro podre e bom. Saímos atrasados de casa e quando chegamos ao parque havia acabado de anoitecer. O céu estava fresco. O céu argentino é plúmbeo, comentamos, uma quase verdade dos nomes. Christian quer matar um dos patos da lagoa e cozinhá-lo como jantar. Um senhor conta orgulhoso a Simon de como um único casal de ranas-toro que trouxe à Colômbia há vinte anos se havia reproduzido de tal maneira frenética que teve de deixá-los na rua e então povoaram todo o país com sua prole e ferozmente extinguiram outras espécies de ranas. A montanha sagrada. Sapos brasileiros que fazem barulho de maquinaria quebrada. Ranas que hacen coger por los huecos. Chumbo e prata. Prata de matar lobisomem, mancha de limão galego, casco de colonizador. Chumbo de matar rato, arame de anzol, chumbo pesado, chumbo bom. Un hombre lobo americano en londres, en los bosques, el libertador. A gente manejando seus territórios, deslizando pelas avenidas, enviando mensagens precisas com grunhidos simples e genéticos. Eu gosto de você. Passa-me a blusa. Somos de lugares distantes. As grades do zoológico. Comunicar-se sem pistas, sin huellas. Gritos despatriados. Matrimônios de bruxaria. A comunhão da droga. A qualidade da língua. Diversão, como dizem à moda. Coger por los huecos. Coger pelos espaços das grades. Coger por agujeros negros por la cola de estrellas que estão vindo, que trazem o fogo de desde todas as direções. Hacia todas las direcciones. O fogo das deformações inesperadas. Fabíola não quer filmar o parto da sua irmã. Na cesariana me puxaram pela cabeça e me legaram um corpo débil. Minha mãe contou meus dedos. Janaína nasceu pelas pernas e não se sentiu doente. Não assistiu tão tragicamente ao germe de sua falência pulmonar. Tinha mãos morenas, não fumava, sentia as ranhuras da palha molhada. Minha primeira respiração em vhs. O sopro da discórdia a um corpo dessubstanciado, Um parasita flagrado com faca em pleno desenvolvimento. Arrancado pela cabeça, centauro, metal, sangue e farinha. O desenvolvimento perverso de dispositivos offline. O ar como um frio que asperge fumaças. Uma placa de prata. O ar sufoca, é como um rio de água muito gasosa à cuja superfície chegamos de tempos em tempos, diz o marido de Lady Chatterley. O êxtase, um êxtase, em inglês não há diferença. A carne numa cuba de alumínio. Um cubo de carne nua. Alumínio limpa a carne, alumiação. A carne, por sua vez, tem a densidade do hormônio do prazer e do desespero. Prova do suco da bomba, me atravessa com o teu. 06 DE JULHO. Uma vez mais a vida chega ao ponto de querer registrá-la o mais directamente possível. Diretamente. O ponto, como o ponto da bala, o ponto da massa. O ponto de embarque. Densifica, passa à redução, expande, derrama e pede para ser devorada. já não pode mais ser revolvida. Laura entra em casa como entrando em cena. Por eso yo salí de Bogotá, allá uno que trabaja con teatro es un payaso. Noite de estréia. Os olhos dele estavam vermelhos e baços, uma onda ridícula de base e ansiedade. Sua maneira de mostrar-se à mim, à noite, despojando-se das distâncias, frágil como um carneiro com as pernas pra fora da vagina da mãe mas com a cabeça ainda dentro, como uma deformação do corpo da mulher. Frágil cartilagem primitiva, animal incompleto (é ainda menos que um parasita). Não chegará a caminhar. Sabe que algo está errado mas não pode ver o que é, está colgado, acontece que sua cabeça está numa redoma de carne. Vinga-se de mim, sabe vingar-se de mim, sabe suceder às minhas falas. Isso é raro. Porque conheci pouca gente. Não passo de uma criança, são apenas três e meia e você já está louco demais. Não vejo nada de errado em explorar a aparência. Gosto da palavra urbana. Crises podem ser caricaturais. Orgasmos podem ser engraçados. Tudo pode ser bom ou ruim, bom ou ruim, bom ou ruim. Amanhã buscarei um edredom, uma blusa preta, um bom cachimbo e um livro que se passa no parque lezama. As meninas falam sobre este livro na sala. A ti no te quiero mucho. Nada que decir, y también ellas callan. Amanhã não buscarei ajuda. O desespero em que amanheça depois de uma noite de cocaína não existe nos colombianos. A necessidade apavorante de criar uma caverna. Quando amanhece no parque lezama estou do outro lado da fronteira, jogada pelos lagos aterrados de crianças, falando um português reduzido aos meus antigos vícios, já sem o manto, sem a experiência do plano seqüência. Minha língua entra em convulsão durante o sono, pornográfica, interrompida, destrutiva. O outro acorda maníaco, e dorme como um maníaco. Dormir com ele outside the cave and wake up inside. Fugir dos tigres que rondam os túmulos. 07 de julho. Substituir clandestinamente o “Libro de quejas y sungerencias a disposición” por um “Libro de quesos y sungerencias a disposición”. As fotos online desapareceram. Chegou o e-mail com o código pra sacar a grana. O horóscopo anuncia dias de recolhimento com a lua nova. A lua mesmo eu não vi, bebi, quebrei o nariz Me sinto enjoada quero comer