Palavras do dom

Quando vindo
de vagar
por entre os mundos
e perder
tudo que tinha
de oito pêndulos
sacolas, orgulhos
tremendos
os traços da face
sumidos
em sumidouros de lírios
do rio
(onde noite e dia jamais
se estranharam e um monte
de outras coisas seguem sendo um só)
rumando sem fim
rebento assim ao acaso
com dois ou quatro amigos
(o número não vem ao caso,
mas a realidade da coisa)
que passando
a saber
assobiam
ao pouco o tempo
me fiam
a roupas sujas
me ajeitam
as caras justas
redondas
recordam
sol que habita
ainda estes estios
e abertas
num gesto
me espertam
num beijo
com sal nos beiços
e outras charadas
em poucas palavras
me encarnam
enfim
pra
que
outro

pra que outro caminho?

25 de mayo, av.




Buscando instantes nas paredes rasuradas, tateando, 
máquinas dedos de construir pequenos corpos, deslizando pela pele áspera do tempo, 
encaixando engrenagens largadas ao sol em sonhos quebrados de jogadores defuntos 
instrumento hálito nebuloso nas sementes encravadas por dentro, Engendrando 
criaturas de lixo, saciando personagens de pó, heróis encarnados 
em peças minúsculas, em cada sílaba que surge do concreto: arqueólogos, catadores 
de despejos, caçadores de espíritos, de loucos simplesmente caminhantes do 
deserto latejante sob toda construção Desde então / habitantes esquivos / repletos
daquelas ruas / Possuidores deste carácter de beco, 
infinitamente líquido, sabendo provocar com um só gesto da cabeça, 
com qualquer coisa que tenha à vista ou às mãos, com os desenhos dos pêlos, nariz 
lábios esculpindo o sopro um ou dois dedos ao alto E a frequência desentranha 
E saem os bichos de debaixo do asfalto, chuva quente Tragando pegadas
Movendo-se pelas mensagens como a aranha por suas tetas
voando, tecendo o invisível adiante do outdoor:
Abaixo a autópsia Abaixo a autopista!
Viva o que vai por debaixo Viva o lixo O direito pelo sinistro 
E os irmãos que vêm dos canos dizem também sangra o cimento pelos caminhos 
que andamos E as cavernas que dormimos Sem engano Por dentro da carne A noite Ao norte ao leste ao sul ao norte a peste Magnetismo Matéria 
prima deste engenho Restos Rostos de quem vem de qualquer lado Cabelo sertanejo e um sotaque caribenho Leofóros Porticus Próspiekt Nervo de boi Artérias Lombrigas Avingudas Avenidas Todas Latino-americanas, facada aberta no escombro de paragens e bandidas, teus três tempos evocamos 
a que consumam nossas libações de rosa shock 
estanho sobre o platô de poeira em que erguidas



trocando idea

Pero por favor Decia con la ceja irónica y oscura Cerrar los ojos No ver que te gustaría Mirar con los ojos cerrados A lo que es Que no es El estómago me duele El estómago se mueve A las órdenes Y el acaso Se sienta en mis piernas Esta sangre Sangre de gallina en crucijada Pero por favor Que hacer con esta idea? No hay límite si no manera Esto es otra cosa Es decir que la tierra traga Hasta los muslos, no en intención, ni en pa labra Tam bién en pa labra Pero de hecho De hecho Serás Muy distinto Es Sos Ves esta mano? De a poco Esta mano Apunta y comanda Arriba y abajo De los astros a las gónadas Dice la ley Dices la letra A Y ningun juramento valdrá Más que los ojos Que las ganas Nuestros relámpagos Tus tiempos Nuestros Blandos Buenos Duros Malos Esto A que llamamos mañana Se llaman llanuras Pero por favor Hay que hacerlo no más Perdía la razón Avanzaba sobre la pérdida Con ganas de Una canción bastante particular Tenemos fisuras, prolongamientos, cílios, alumbramientos, exactamente como todo, hasta las piedras Somos exactamente lo que somos Pero a donde Quemada Es que vamos Nebulosas Que es Un abrazo Que Queremos Oceanos Carajo Entregarse hasta el temblor Vibrar en todas las extrañezas Algo así Sudaba Cuan extraño es esto? Cuan extrañas las piernas que bailan en nuestros sueños Cuan extraños estos cuerpos
enlazados empuñando
banderas al revés
poseídos por
las águas a
que finalmente
llegan los ojos,
película lágrima
entre el nervio
y el aliento de
un ot y un otro,
más fuerte que cualquier pátria Cualquier dicho cualquier rostro
bajo las luces de una computa-
dora desde el piso de la
pieza de la única pose
posible la piedra
encontrada
redonda
rajada

que al segundo detona
y nada

inverno

o cheiro de carne
a chuva entravalhe
por cada ponto da pele,
serenamente
abolutamente penetrante,
esplêndida nuvem de calor
pesada
flamejando
em plena
noite de solstício
atraíndo os gaviões os urubus
farejantes do horizonte
velocíssimo

"Os bárbaros são estes,
dizia, já não há
que buscarlos

a boca do lobo

seu coração
lhe arrasta por válvulas transplantadas no tempo
ao baixio das pontes, a paisagens de vento, à poeira entre o
bairro da acusação e a ponte da confissão, zonas em que um mesmo
termo serve a ganhar e a perder, antigos pântanos imundos, onde
tantos, ao prazer da lama
tragados a gosto
a caminho de

onde desaparecem os ciganos
onde começam e terminam as fogueiras
onde a vista concentra no engano
surge a alba
branca e longa e pensa
que é fumaça que vaza a boca tensa..

- ei! princesa!
corta um grito da autopista
- vaza, isso é sujeira,
um taxista, seu sotaque suburbano fumando e rindo no meio de

guardando o indomável trás de dentes
dourados, sem querer da nobreza mais que uns poucos corpos
fartos buscando amanhecer


disse do vão não tem volta, princesa,
pra lá te arrastarão teus sonhos,
inundarão desta saliva os teus passos

ai de quem seguir
te pra lá sempre

pedaços

panegírico argentino

O escritor argentino Ernesto Sábato morreu neste sábado aos 99 anos em sua casa, nos arredores de Buenos Aires, disseram pessoas próximas ao autor.
Sábato, um dos maiores nomes da literatura argentina, estava há vários anos praticamente cego e se mantinha recluso em sua residência na cidade de Santos Lugares. 


Sábato ha muerto sábado ha muerto
Concluyeron, después que te levantaste
y te fuiste caminando del ataúd
Sin exclamaciones
Ni policía ni formol, un corte
habría sido redundante
en tu piel rotunda
Años ciegos, decían, cuando ya te habían muerto tantas palabras
habitabas todavía como moho imperceptible estas páginas en que baila
la muerte aterciopelada
entre caballos, besos tardíos, cabezas
encajonadas, al otro lado del espejo
centenario
te fuiste, dijeron los tuyos
por la calle oscuro
del barrio

Tus años en silencio
son la pulpa de tus héroes, madura

Perla de carne de santos lugares!
Buenos aires te alucina, a tu genealogía muda

Otoño


La ciudad se está llenando, dijo,
de un cierto olor, dijo, no lo sientes?
No te parece, por dios, no te parece,
el mismo, exactamente el mismo,
el olor de hace un año, el olor del
diecisiete, sudaba, este viento se está
llevando todo, no lo sientes? dejando
una vez más este punto sin historia,
lentamente, dijo, es como si ahogáramos
en la pintura, tinta sobre tinta, todo
mojado de todo:
el olor a pino que sale de los huecos del subterráneo
rasgos de aquel lejano hotel
el olor de las espaldas
de las manos
de la menstruación tardía
en el mismo día
de verdad no estamos?
No sé, no sé, pero rasca! Urge! Que dios es este
que de nuevo sopla el piso
para dentro de las entrañas? El segundo
rayo es de verdad el primero, dijo, si no
vuelve nunca sabremos que
estuvo, sudaba, bien ahí,
Pero que va a quedar?!
Un momento

Nada
le dije
Escuchalo pasar
                                
                 

                                                                                                                                        
                                                                                                                                       
                                                                                                                                         
                                                                                                                                          
                                                                                                                                        
                                                                                                                                          
                                                                                                                                        
                                                                                                                                         
                                                                                                                                  




                                   




os sinais do meu rosto
são demasiado fortes,
demasiado escuros, demasi-
ado exatos: eu tentei
arrancar o sinal com
uma lâmina e ele voltou
a crescer mais
alto Você faz eu
me sentir de verdade,
meu deus, o que mais no que a
vida tem de mais tacanha,
eu preciso voltar
ao cenário arrasado
do ensaio de
um adeus, uma
mulher com todas as
letras, um rapaz promissor,
dois realistas
um realismo, a generosida-
de e o amor, escrita
dissecção dissecção
real
substância

Escuto um tambor do fundo
do respiradouro -
será que voltaremos?
Quanto menor a sala
mais delicada remoção
mais fraterna ameaça

Prestes
prestes a aproximar-se
o riso estrábico, agudamente impreciso
de carolina não seria mais
visto. Ela chegou, aquela
tarde perene anunciada
no céu, gritada
em notas toscas nas notícias,
aquela tarde vendida como
café,
carolina estava razoavelmente
bem quando a conheci, agora
vejo, seu cabelo que quanto
mais curto mais cheio
mais gigantesco
cheiro de anemia

Você se faz frágil ante
a mim, carolina,
como uma lâmina
da medula,
você era frágil, e eu,
uma capela de aço sem santos,
e ao contrário e ao revés,
e não foi pelo amor
maravilhoso que você me
dedicou, e nem por ser capaz de
arruiná-lo carolina
devastá-lo carolina

O que aconteceu nessa casa,
é isso que os homens chamam
casa,
onde está o que não brilhe,
como um tilintar de chaves
ansiosas
uma
resposta negada

Eu fui a pior
das covardes, mas terminei estando
inteira à sorte, agora sim,
Será que a gente volta?
Você calou por tempo
demais
e aí você sangrou
carolina
cristo cristal radiante
sangra delícia chuva
sangrante
sangra grande
vocabulário desconhecido
(eis o teu grande
enorme pesadelo)
Não carolina não tem
porque ir ao médico,
eu não vou te deixar sair
do alçapão desta frase

É daqui que a gente volta?
Não, já não passam
ônibus meu
deus quanta gente -
Esse tanto separa
o que do quem?
você sabe
do que eu estou
falando, você
sabe muito bem
Quando desliza
os seus pés mineiros,
brancos, levemente imperfeitos,
o suficiente para uma boa
fodida
filha do meio
Carolina desliza os seus
pés de sendas fundas
pela pele translúcida
venosa do pênis
Esse menino é perfeito: ela diz
ele diz
eu gosto de estar assim etc.
A simplicidade:
de onde essa idéia carolina
o que é que ela
está fazendo aqui em casa ?
Quem é o homem simples,
no que é que o homem se
parece ao homem?
Um sinal negro
estalado no fronte
incravado na testa
você é o corpo
ridículo, disse
está dito
andam dizendo
que você chegou e nunca mais
voltou
Você falou em brutalidade
porque é que você foi falar
em brutalidade?
Fala, por favor, fala, que é que eu amo
é isto, tal qual
A unha grande dos pés
O senso de
dever está
te ajudando
em algo? A mim tampouco?
Eu digo ao porteiro
se aparecer uma pessoa
me procurando
diga que estou
atrás dela

graças a deus
graças a deus
alguém saberá da vida
o primeiro
desfile do louco:
rumo às paisagens onde não há nada a perder etc etc

eu te escolhi
para essa
prova
analgésica
venenosa

eu quero te
alcançar para
pedir perdão

eu quero chegar
eu desejo chegar
para além do
meu melhor juízo
que diz vai sem ter
pra onde

Eu devo pagar
pelo teu trabalho:
deambular tuas
horas em folha
como uma mulher natural
que é que importa
que sei desta massa
amorfa que se interpõe
como um feitiço
ao nosso choro
à boca do tal túnel,
o túnel, primeira prova,
somente, de que o
que lhe digo é verdadeiro,
atravessamos
um conjunto demasiado
juntos demasiado
grande
uma família deforme
uma cidade amorfa
um oceano feérico
um banquete
uma cagada

muitas horas de
disfrute
uma bomba
gástrica
no lazer
que copacabana já
não comporta um fio

o pavor
no desvio de
um amor:
que me joguem
das janelas,
um pouco de cada
uma

a droga e a
arma são
máquinas de
guerra o caminhar
jesus

a única via
possível numa
cidade sitiada
é o atropelamento
a generosidade
e o amor

um policial de pé
em cima
de uma universidade observa
mais uma suspeita,
mais uma suspeita,
mais um passante
que se detém por qualquer
tempo
em qualquer grande coxa
e então segue
ciscando milho
engolindo areia no lugar
do alimento
ecrevendo ouro
onde não cabe nada
escrevendo nada
onde nada cabe
mais

Não tardam os ônibus
que vêm e que vão.
Será que voltaremos?
não será com
dinheiro, certamente.

Carolina
calvário falcão
chuva impregnada
pelas notícias
da aniquilação:
graças graças!
Isto nós temos!

Estas cicatrizes
tatuadas
de uma geração bendita,
farta
do útero farto
e comum,
comum como uma
rocha

Encontrei o cara que falava de velvet
underground voltando a pique pela veia inversa
há quanto tempo

Que cidade maravilhosa
abundante
é a mais belíssima, abundante,
tétrica babilônica etc:
não faltarão irmãos
para cruzarmos as
negras sendas
dos teus pés
pelas linhas
mais avessas
À beira da avenida
desnudos
éramos três -
é agora
é agora!
e cada um cruza
e cada um segue
com sua sacola
com seu juramento
um tecido pesadíssimo -
Somos os três
um homem velho
um homem grande
e eu

O homem grande tem um
rádio por que comunica
sua posição
eu e o velho não
temos nada

Onde você quer que
eu chegue carolina?

Esse negócio
tem que me botar
nos ossos,
justo como era
pra ter sido
feito
passo

A inexistência absoluta
de outro espaço:
o nosso

e por onde quer que passe
uma pena
trotam aos montes
os falcões
injetáveis
da abolição:
irmãos aos montes
irmãos pra dar e vender
onde quer que me sente
haverá um sentado à espreita:
sentido
o olhar ao acaso
feito por agora
este mar detonado,
manso como
o diabo

a mão imperfecciosa,
um casamento: nada menos
que alimentar-se
em migalhas
Finalmente: uma
fumaça negra,
velhos malandros
pedaços
queimam um pneu
por um buraco
por entre as
pedras trepam
pernas
um homem ao
mar
banha-se
tão somente
num canto,
esfrega os olhos
carecas e lisos,
distante os iates

Curva absoluta
entre atletas e loucos
muitos transformistas
muitos híbridos
e o brilho começou a
diminuir:
uma buzina
um sombrero
e o cheiro de sopa:
os caminhantes buscam nas costas de pedra
donde meter-se,
donde queimar
o seu

Botafogo. Glória.
Pescadores. Chuva fina.
Chove em bicicletas.
A massa abranda
no ponto de
estendê-la

Chupo um cigarro
magro em donde
tender meu corpo
molhado
forte
sem debilidades
uma geração
fútil
a polpa da futilidade
um anfiteatro
um vendedor impossível
metido em salgueiros:
ó mate! ó água!

Periquitos. Uma amêndoa
aberta e madura

A ponte
O centro
Tempestade de
neve
adentro
Café cortado
no branco na borra
no canto e no agora na
frente
algo se faz
ver
dois

e livre

lezama veranil


À casa lhe falta tudo
e não tenho para
lavar os olhos,
assim volto ao local do
enterro, ao poço, o sol de aço,
vejo que a virgem recebeu flores,
que os homens feitos
ontem e antes de ontem ainda
não têm a donde ir,
sentados, delgados, escassos,
secando as pernas maduras como
ao comer da fartura
o sumo lento

Este corpo de lama será preciso
mais que um exército de criaturas
em derrubá-lo,
mais que um bando
de palavras inequívocas

Este tombo em fim
caminha pela manhã
e adormece de cansaço,
e se não há terra livre, joga-se no espaço
de qualquer fantasia limpa
de qualquer pedaço de lã

(Uma volta no bairro de baixo)

Para dois vagabundos despertos
há um campo de louros calados,
um monte de bancos cobertos,
o fundo dum rio tragado

Da mulher fugida 
a espreita
figura, a sombra, a cura, o suor
doa mor do ar

el doble

Entre perro y lobo (Olga Orozco)

Me clausuran en mí.
Me dividen en dos.
Me engendran cada día en la paciencia
y en un negro organismo que ruge como el mar.
Me recortan después con las tijeras de la pesadilla
y caigo en este mundo con media sangre vuelta a cada lado:
una cara labrada desde el fondo por los colmillos de la
    furia a solas,
y otra que se disuelve entre la niebla de las grandes manadas.

No consigo saber quién es el amo aquí.
Cambio bajo mi piel de perro a lobo.
Yo decreto la peste y atravieso con mis flancos en llamas
las planicies del porvenir y del pasado;
yo me tiendo a roer los huesecitos de tantos sueños
    muertos entre celestes pastizales.
Mi reino está en mi sombra y va conmigo dondequiera que vaya,
o se desploma en ruinas con las puertas abiertas a la
    invasión del enemigo.

Cada noche desgarro a dentelladas todo lazo ceñido al corazón,
y cada amanecer me encuentra con mi jaula de obediencia en el lomo.
Si devoro a mi dios uso su rostro debajo de mi máscara,
y sin embargo sólo bebo en el abrevadero de los hombres
un aterciopelado veneno de piedad que raspa en las entrañas.
He labrado el torneo en las dos tramas de la tapicería:
he ganado mi cetro de bestia en la intemperie,
y he otorgado también jirones de mansedumbre por trofeo.
Pero ¿quién vence en mí?
¿Quién defiende de mi bastión solitario en el desierto, la sábana del sueño?
¿Y quién roe mis labios, despacito y a oscuras, desde mis propios dientes?

*


Entre cão e lobo (tradução)

Me clausuram em mim.
Me dividem em dois.
Me engendram cada dia na paciência
e num negro organismo que ruge como o mar.
Me recortam depois com as tesouras do pesadelo
e caio neste mundo com metade do sangue para cada lado:
uma cara lavrada desde o fundo pelos caninos da
    fúria a sós,
e outra que se dissolve entre a névoa das grandes manadas.

Não consigo saber quem é o amo aqui.
Mudo sob minha pele de cão a lobo.
Eu decreto a peste e atravesso com meus flancos em chamas
as planícies do porvir e do passado;
eu me estiro a roer os ossinhos de tantos sonhos
    mortos entre celestes pradarias.
Meu reino está em minha sombra e vai comigo onde quer que vá,
ou desaba em ruínas com as portas abertas à
    invasão do inimigo.

Cada noite rasgo a dentadas todo laço ajustado ao coração,
e cada amanhecer me encontra com minha jaula de obediência no lombo.
Se devoro ao meu deus uso seu rosto por baixo de minha máscara,
e no entanto só bebo do bebedouro dos homens
um aveludado veneno de piedade que roça nas entranhas.
Lavrei o torneio nas duas tramas da tapeçaria:
ganhei meu cetro de besta na interpérie,
e outorguei também migalhas de mansidão por troféu.
Mas quem vence em mim?
Quem defende de meu bastião solitário no deserto, o lençol do sonho?
E quem rói meus lábios, devagarinho e às escuras, desde meus próprios dentes?

alter

arquitetura

ao meu dimitri karamázov

Tenho sonhado com túneis
há muito
a dentro da noite do peito
te auscuto, te desejo,
ruína de si,
homem morto, sagrado,
que no entanto pulsa,
e cospe, e ri.

Sonho com elevadores
e não sonho com a enorme baía de pedras que atravessa a minha mente,
mas com um mecanismo elevador vazio condenado
indicando um andar impossível
onde a vida é tão pouco provável

o underground

está em arruinar-se realmente
definitivamente

em não escapar-se ao silêncio
convexo, ereto, espasmódico,

em praticar a fome e a gula
neste corpo torcido inflamado
numa noite enorme como esta.

Sonhei que não sabia mais andar
e que por isso não me cobravam o aluguel.

Em plena nudez as ruas cortadas do meu primeiro frio, 
lanternas cravadas como chifres no escuro, os olhos duros da besta
que escapa

por uma avenida que sobe e desce pela noite
por uma cidade que é inteira um porto
mas não há porto

herdeiro menino de rua, você nunca dorme realmente,
você é feito carne de cão

Meu perfeito personagem
desde meus primeiros delírios
evoco tua presença da penumbra
que se faz em cada esquina:

"Minha vida é um grande poema...
um grande...
um que?"

Aqui onde o verão é o presságio do inverno é o presságio do verão

Onde há mais de um outro em um
que um só, meu amor, meus companheiros, tu, vós, camila de moura, terra estrangeira

Língua maldita
que deforma isto
de confissão
em delito: ficção em borracha
deusa em cadela
pó em líquido.

Escuta, já são seis horas,
já saíram os vermes dos canos

escuta as doze horas,
estão cheias de estudantes as ruas

então às tantas já não há que trancar-se,
e seguimos

três ou quatro linhas

a dentro

A vida vivida assim
me custará a vida

o espanhol falado assim
sonho imenso doce alcoólico

o amor feito em desvario
perpetra o gene do assombro

à beira das costas tua mão
desliza por meu
sono profundo

e assim como erramos
caímos nós por entre os dias
e
como um só nó come a goela dos caídos,
como o cárcere
devora suas paredes,
come tu deste silêncio simples

como o silêncio duma rua limpa, cocaína,
da que todo concreto
(armado) é
ruína

perro de tres patas

perro de tres patas,
te acuerdas de la fuerza que tenías?

no, no señor
no he nacido con un oído musical
tengo pocos placeres tan violentos como caminar
dicen que soy una mujer violenta que sigo siendo, camino sin poder caminar
van a decir que morí por lo que fui eso será mentira:
moriré por nada

como entonces vivi de cosa alguna, caminé
para comer del mundo hay que pagar con sangre, escuché
callada estaré callada
grité sóla las cosas carecen de semejanzas,
grité desde la colonia a las madrugadas que frecuento
sin poder
que no
ser libre
es locura

a
estos miembros fantasmas que duelen cuando avanzo
a
la señal nocturna de ciudade s s a t e l i t e s s
a
el aullido atravesado por deformaciones de raza
muchas veces perdida, cansada, herida
bajo la multitud invisible
suave y azul

las ventanas,


calle
Potencia

sublime

perra

sin dueño: yo
estoy por escribir una exortación a la supervivencia en la lava, a la transmutación colectiva en bacterias anaerobias, a la amputación de los miembros y a la práctica sexual extrema, respiro a lo largo de los años imaginando la nostalgia del aire, imaginando el elogio y la crítica del placer apnéico, sintiendo en los costados el golpe de aire que me abatirá en un único asalto centenas de milenios antes de la insurgencia volcanica que en fin vencerá (cruzará) el humo la basura el ruído la gente, que destruirá inexorablemente mis escritos las ciudades que fueron y la tierra que tragó los gusanos que corroyeron la pata muerta pata tierra pata pata el que de todo es
pata que lo que fue
no es más

que vos que me calentaste candela
gran calle gran noche madre primera
que sea grande el seno de la ciudad y libre
enorme el clamor de tus hijos

a veces tengo ganas de escribir sobre cosas sobre las cuales
no tengo ninguno conocimiento
como un niño endemoniado, sin pulgares
con tres golpes certeros tres monedas
devasto la tierra en que todavia tiemblan
las tres cabezas de mi antecesor
directo en la historia de los iconos que
adornan los edificios más centrales
bajo los cuáles los índios los máximos
reyes de todos los lados sólos ahora tiemblan
bajo una mitologia canina caminan
mi lado fuerte al lado de ellos
mi lado débil a los automóviles
marchamos a los cerros de basura
y destrozamos la carne
y devoramos los huesos.

Gran calle gran noche madre primera perra
Que sea grande el seno de la ciudad la libertad
Más grande clamor de tus hijos.