arquitetura

ao meu dimitri karamázov

Tenho sonhado com túneis
há muito
a dentro da noite do peito
te auscuto, te desejo,
ruína de si,
homem morto, sagrado,
que no entanto pulsa,
e cospe, e ri.

Sonho com elevadores
e não sonho com a enorme baía de pedras que atravessa a minha mente,
mas com um mecanismo elevador vazio condenado
indicando um andar impossível
onde a vida é tão pouco provável

o underground

está em arruinar-se realmente
definitivamente

em não escapar-se ao silêncio
convexo, ereto, espasmódico,

em praticar a fome e a gula
neste corpo torcido inflamado
numa noite enorme como esta.

Sonhei que não sabia mais andar
e que por isso não me cobravam o aluguel.

Em plena nudez as ruas cortadas do meu primeiro frio, 
lanternas cravadas como chifres no escuro, os olhos duros da besta
que escapa

por uma avenida que sobe e desce pela noite
por uma cidade que é inteira um porto
mas não há porto

herdeiro menino de rua, você nunca dorme realmente,
você é feito carne de cão

Meu perfeito personagem
desde meus primeiros delírios
evoco tua presença da penumbra
que se faz em cada esquina:

"Minha vida é um grande poema...
um grande...
um que?"

Aqui onde o verão é o presságio do inverno é o presságio do verão

Onde há mais de um outro em um
que um só, meu amor, meus companheiros, tu, vós, camila de moura, terra estrangeira

Língua maldita
que deforma isto
de confissão
em delito: ficção em borracha
deusa em cadela
pó em líquido.

Escuta, já são seis horas,
já saíram os vermes dos canos

escuta as doze horas,
estão cheias de estudantes as ruas

então às tantas já não há que trancar-se,
e seguimos

três ou quatro linhas

a dentro

A vida vivida assim
me custará a vida

o espanhol falado assim
sonho imenso doce alcoólico

o amor feito em desvario
perpetra o gene do assombro

à beira das costas tua mão
desliza por meu
sono profundo

e assim como erramos
caímos nós por entre os dias
e
como um só nó come a goela dos caídos,
como o cárcere
devora suas paredes,
come tu deste silêncio simples

como o silêncio duma rua limpa, cocaína,
da que todo concreto
(armado) é
ruína

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