os sinais do meu rosto
são demasiado fortes,
demasiado escuros, demasi-
ado exatos: eu tentei
arrancar o sinal com
uma lâmina e ele voltou
a crescer mais
alto Você faz eu
me sentir de verdade,
meu deus, o que mais no que a
vida tem de mais tacanha,
eu preciso voltar
ao cenário arrasado
do ensaio de
um adeus, uma
mulher com todas as
letras, um rapaz promissor,
dois realistas
um realismo, a generosida-
de e o amor, escrita
dissecção dissecção
real
substância

Escuto um tambor do fundo
do respiradouro -
será que voltaremos?
Quanto menor a sala
mais delicada remoção
mais fraterna ameaça

Prestes
prestes a aproximar-se
o riso estrábico, agudamente impreciso
de carolina não seria mais
visto. Ela chegou, aquela
tarde perene anunciada
no céu, gritada
em notas toscas nas notícias,
aquela tarde vendida como
café,
carolina estava razoavelmente
bem quando a conheci, agora
vejo, seu cabelo que quanto
mais curto mais cheio
mais gigantesco
cheiro de anemia

Você se faz frágil ante
a mim, carolina,
como uma lâmina
da medula,
você era frágil, e eu,
uma capela de aço sem santos,
e ao contrário e ao revés,
e não foi pelo amor
maravilhoso que você me
dedicou, e nem por ser capaz de
arruiná-lo carolina
devastá-lo carolina

O que aconteceu nessa casa,
é isso que os homens chamam
casa,
onde está o que não brilhe,
como um tilintar de chaves
ansiosas
uma
resposta negada

Eu fui a pior
das covardes, mas terminei estando
inteira à sorte, agora sim,
Será que a gente volta?
Você calou por tempo
demais
e aí você sangrou
carolina
cristo cristal radiante
sangra delícia chuva
sangrante
sangra grande
vocabulário desconhecido
(eis o teu grande
enorme pesadelo)
Não carolina não tem
porque ir ao médico,
eu não vou te deixar sair
do alçapão desta frase

É daqui que a gente volta?
Não, já não passam
ônibus meu
deus quanta gente -
Esse tanto separa
o que do quem?
você sabe
do que eu estou
falando, você
sabe muito bem
Quando desliza
os seus pés mineiros,
brancos, levemente imperfeitos,
o suficiente para uma boa
fodida
filha do meio
Carolina desliza os seus
pés de sendas fundas
pela pele translúcida
venosa do pênis
Esse menino é perfeito: ela diz
ele diz
eu gosto de estar assim etc.
A simplicidade:
de onde essa idéia carolina
o que é que ela
está fazendo aqui em casa ?
Quem é o homem simples,
no que é que o homem se
parece ao homem?
Um sinal negro
estalado no fronte
incravado na testa
você é o corpo
ridículo, disse
está dito
andam dizendo
que você chegou e nunca mais
voltou
Você falou em brutalidade
porque é que você foi falar
em brutalidade?
Fala, por favor, fala, que é que eu amo
é isto, tal qual
A unha grande dos pés
O senso de
dever está
te ajudando
em algo? A mim tampouco?
Eu digo ao porteiro
se aparecer uma pessoa
me procurando
diga que estou
atrás dela

graças a deus
graças a deus
alguém saberá da vida
o primeiro
desfile do louco:
rumo às paisagens onde não há nada a perder etc etc

eu te escolhi
para essa
prova
analgésica
venenosa

eu quero te
alcançar para
pedir perdão

eu quero chegar
eu desejo chegar
para além do
meu melhor juízo
que diz vai sem ter
pra onde

Eu devo pagar
pelo teu trabalho:
deambular tuas
horas em folha
como uma mulher natural
que é que importa
que sei desta massa
amorfa que se interpõe
como um feitiço
ao nosso choro
à boca do tal túnel,
o túnel, primeira prova,
somente, de que o
que lhe digo é verdadeiro,
atravessamos
um conjunto demasiado
juntos demasiado
grande
uma família deforme
uma cidade amorfa
um oceano feérico
um banquete
uma cagada

muitas horas de
disfrute
uma bomba
gástrica
no lazer
que copacabana já
não comporta um fio

o pavor
no desvio de
um amor:
que me joguem
das janelas,
um pouco de cada
uma

a droga e a
arma são
máquinas de
guerra o caminhar
jesus

a única via
possível numa
cidade sitiada
é o atropelamento
a generosidade
e o amor

um policial de pé
em cima
de uma universidade observa
mais uma suspeita,
mais uma suspeita,
mais um passante
que se detém por qualquer
tempo
em qualquer grande coxa
e então segue
ciscando milho
engolindo areia no lugar
do alimento
ecrevendo ouro
onde não cabe nada
escrevendo nada
onde nada cabe
mais

Não tardam os ônibus
que vêm e que vão.
Será que voltaremos?
não será com
dinheiro, certamente.

Carolina
calvário falcão
chuva impregnada
pelas notícias
da aniquilação:
graças graças!
Isto nós temos!

Estas cicatrizes
tatuadas
de uma geração bendita,
farta
do útero farto
e comum,
comum como uma
rocha

Encontrei o cara que falava de velvet
underground voltando a pique pela veia inversa
há quanto tempo

Que cidade maravilhosa
abundante
é a mais belíssima, abundante,
tétrica babilônica etc:
não faltarão irmãos
para cruzarmos as
negras sendas
dos teus pés
pelas linhas
mais avessas
À beira da avenida
desnudos
éramos três -
é agora
é agora!
e cada um cruza
e cada um segue
com sua sacola
com seu juramento
um tecido pesadíssimo -
Somos os três
um homem velho
um homem grande
e eu

O homem grande tem um
rádio por que comunica
sua posição
eu e o velho não
temos nada

Onde você quer que
eu chegue carolina?

Esse negócio
tem que me botar
nos ossos,
justo como era
pra ter sido
feito
passo

A inexistência absoluta
de outro espaço:
o nosso

e por onde quer que passe
uma pena
trotam aos montes
os falcões
injetáveis
da abolição:
irmãos aos montes
irmãos pra dar e vender
onde quer que me sente
haverá um sentado à espreita:
sentido
o olhar ao acaso
feito por agora
este mar detonado,
manso como
o diabo

a mão imperfecciosa,
um casamento: nada menos
que alimentar-se
em migalhas
Finalmente: uma
fumaça negra,
velhos malandros
pedaços
queimam um pneu
por um buraco
por entre as
pedras trepam
pernas
um homem ao
mar
banha-se
tão somente
num canto,
esfrega os olhos
carecas e lisos,
distante os iates

Curva absoluta
entre atletas e loucos
muitos transformistas
muitos híbridos
e o brilho começou a
diminuir:
uma buzina
um sombrero
e o cheiro de sopa:
os caminhantes buscam nas costas de pedra
donde meter-se,
donde queimar
o seu

Botafogo. Glória.
Pescadores. Chuva fina.
Chove em bicicletas.
A massa abranda
no ponto de
estendê-la

Chupo um cigarro
magro em donde
tender meu corpo
molhado
forte
sem debilidades
uma geração
fútil
a polpa da futilidade
um anfiteatro
um vendedor impossível
metido em salgueiros:
ó mate! ó água!

Periquitos. Uma amêndoa
aberta e madura

A ponte
O centro
Tempestade de
neve
adentro
Café cortado
no branco na borra
no canto e no agora na
frente
algo se faz
ver
dois

e livre

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