MUDOU

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O caderno

O caderno deixado à beira da fogueira
foi levado antes que apagasse, clareasse
e os rastros eram tantos
que não havia maneira de saber para que lado havia seguido -
sumiu na praia, antes que tudo amanhecesse,
que voltasse a buscá-lo por entre os quilômetros e as redes,
provando métodos variados de investigação e desconsolo em ambiente selvagem,
perscrutando o último átomo
do universo dentro do olho
do curumim a quem perguntei:
Visse acaso por aqui um caderninho cor de vinho? É que o perdi...
E o moleque fez que não, e me sentei
no meio do mundo,
já sem saber quanto de branco havia em suas faces,
nem se tão vivas, nem se robustas, nem se tenazes,
mas sentindo ainda os seus sinais, suas graúdas interrogações,
seus escassos pontos finais -
O que não volta jamais esteve;
A beleza da fuga não ameniza
os pesadelos;
Vozes demais escutam
santo e surdo -
E muitos outros ditos a tempo
de ofertar minha perda ao vento
que marcava à revelia enorme
página de areia.

Compacto

Los hombres son sus dioses Lado A

"Te amo"

en variaciones mortales

al piano, la imperatriz en bolas
toca a la aparición de este
antiguo conquistador


Los hombres son sus dioses Lado B

"La jornada"

con la orquesta de desechos de trenes
en su única apresentación
por ocasión del velorio
del regente

(le dicen el grande porque ha muerto pero en realidad
fue mucho mejor cocinero - y que carnes!
que grandes carnes!)

Twins

Everyday it is alive

not willing to be cured
mother and father of a never
found race
lying
at the kitchen's
floor, laced

hands,
firm as they can get
touching for a break
in the silence wet,

Trying the cry
as a slippery gun
that tears the whole
and shines
as it would grow
and run

They are not awake -
they rest, flesh longing
to be born

Their chance's passed
but still

Who dares to stare at the hunger's eyes?
Who will?

nebulosas

vejo uma foto tua
metida em golas de blusa,
mãos certeiras diminutas
cobertas pêlo uso couro da coragem
íntima, última dos grandes movimentos
de câmara: não sei que lugar é esse através
de que apontas teu dedo curto
e claro, mas sabe
por detrás das lentes a precisão do bicho
de que foges,
que faz frio dentro
e fora teus olhos maciços mais vivos que
nunca pesam voltar,
mas para onde?
queria meter-me por esta tela
fina, pelo teu agasalho
minúscula masculina,
atenta a que o frio ralha
ele te faz tão bem, pequenina
encarnação de Samuel, e o teu
corpo deve estar mesmo firme
de ter ido tão longe ainda
sem ver a fresta por que
espreitam

livramento duvidoso

quem sabe o que pode tocar
quem sabe?
o corpo sem vida viver
quem sabe?
as horas sem nexo
o olhar inteiro
o corpo nu
a alma nua
quem sabe
tocar?
a valsa mais discreta do mundo
as correntes na ponta dos dedos
prazer de roçar-se no equívoco
sutil abismo
quem pode?
sem matar nem morrer
que segue?

nesta noite secreta
os olhos secos esperam
pela era dos sonhos despertos
pelo tempo de ondas bravias
em que o amor ainda

dispensa interrogações

que dizer? que prefiro o corte
porque é certo?

se dirás
que espécie de faca
pode fender o nada?

da face vista em chama
através dos olhos fechados
do peso pousado de um homem
alívio do peso de um mundo
da derradeira chance
da primeira vista

de tantas perguntas
quem resta?